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Quantum-Safe: ter suporte para a tecnologia não significa estar protegido por ela

A União Europeia já fixou o final de 2026 como o prazo para os Estados-membros iniciarem a transição para a criptografia resistente a computadores quânticos. Em Portugal, não é possível indicar quantas organizações já fizeram sequer o inventário criptográfico que esse processo exige. O problema, no entanto, deixou de ser técnico e passou a ser de gestão

Por Rui Damião . 01/10/2026

Quantum-Safe: ter suporte para a tecnologia não significa estar protegido por ela
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Desde junho de 2025, quando a União Europeia adotou o “Coordinated Implementation Roadmap for the Transition to Post-Quantum Cryptography”, que existe uma data concreta sobre os departamentos de segurança: os Estados-membros devem iniciar a transição para a criptografia pós-quântica (PQC) até final de 2026, com os casos de risco elevado protegidos até 2030. O prazo deixou de ser apenas uma referência distante para se tornar num marco a pouco meses de distância.

Os números do mercado confirmam a mudança de tom. A Gartner descreve, no seu relatório de tendências para 2026, a computação quântica não como um horizonte de planeamento a dez anos, mas como um prazo de ação fixado em 2030. A Forrester estima que os gastos com segurança quântica vão ultrapassar os 5% do orçamento total de segurança de IT em 2026, um sinal de que o tema passou de investigação a aprovisionamento. Ainda assim, o inquérito “Quantum Readiness Outlook” da Digicert, de julho de 2026, mostra que 87% das organizações dizem estar a planear, testar ou implementar PQC, mas só 7% tem mais de metade dos certificados digitais já em criptografia quantum-safe ou híbrida, uma distância grande entre a intenção e a execução.

“Não dispomos de uma métrica consolidada para Portugal”, afirmam Henrique Silva e Tiago Andrade, Senior Client Executives da NetApp. “A nossa perceção é que apenas uma minoria concluiu um inventário abrangente das dependências criptográficas, estando a maioria ainda nas fases de descoberta, avaliação e planeamento”.

O inventário que ainda não existe

A ausência de dados consolidados não é exclusiva de Portugal. Um inquérito conjunto da BSI alemã com a KPMG encontrou uma realidade semelhante, com menos de 5% das organizações alemãs a terem hoje um plano formal de migração.

 

“Ao longo de décadas, a criptografia foi sendo integrada de forma estática e, muitas vezes, sem documentação em aplicações legadas, código de terceiros, equipamentos de rede e tecnologias operacionais”


Michael Osborne, CTO da IBM Quantum Safe

Michael Osborne, CTO da IBM Quantum Safe, prefere não tratar esta fase como uma questão de erros. “A transição para a criptografia pós-quântica não deve ser encarada como uma questão de ‘erros’ por parte das organizações”, defende. O problema está antes na forma como a criptografia foi historicamente implementada. “Ao longo de décadas, a criptografia foi sendo integrada de forma estática e, muitas vezes, sem documentação em aplicações legadas, código de terceiros, equipamentos de rede e tecnologias operacionais”, explica.

Para Henrique Silva e Tiago Andrade, o erro mais comum não é a inação, mas o âmbito limitado da análise e limitar essa análise às aplicações mais visíveis. “Muitas dependências criptográficas estão incorporadas em sistemas legados certificados, mecanismos de autenticação, gestão de chaves, dispositivos e integrações de terceiros”. A IDC prevê que 40% das organizações do Global 2000 vão contratar serviços externos de avaliação de risco quântico até 2027.

Perante um inventário incompleto, a pergunta seguinte é estratégica: substituir algoritmos diretamente ou investir numa arquitetura de crypto-agility, capaz de trocar mecanismos criptográficos sem reformular sistemas inteiros. Os representantes da NetApp indicam que a resposta depende do contexto. “A substituição direta pode ser suficiente em sistemas simples e isolados”, explicam, acrescentando que, em “ambientes complexos, com dados de longa duração, múltiplas integrações e requisitos regulatórios, exigem crypto-agility”.

Michael Osborne recusa a dicotomia e explica que, “em ambientes empresariais”, a substituição direta de algoritmos e a crypto-agility “não são abordagens mutuamente exclusivas”, até porque “a crypto-agility é um requisito fundamental para garantir a resiliência a longo prazo”.

O denominador comum entre as duas abordagens, segundo os representantes do IBM Quantum Safe e da NetApp, é mapear antecipadamente onde a criptografia está a ser usada. Sem esse mapa, nenhuma das duas decisões tem um ponto de partida.

O que já está a ser copiado

O risco de ‘harvest now, decrypt later’, ou seja, a recolha de dados cifrados hoje para serem decifrados assim que existir um computador quântico com relevância criptográfica, é o argumento mais citado para justificar a urgência, mesmo sem data certa para essa capacidade existir.

“Muitas dependências criptográficas estão incorporadas em sistemas legados certificados, mecanismos de autenticação, gestão de chaves, dispositivos e integrações de terceiros”


Henrique Silva (à esquerda) e Tiago Andrade (à direita), Senior Client Executives da NetApp

 

Para Henrique Silva e Tiago Andrade, a prioridade deve seguir o valor e a duração da informação, ou seja, “devem ser priorizados os dados mais sensíveis e com maior vida útil: propriedade intelectual, dados clínicos, informação financeira estratégica, dados pessoais sensíveis, segredos comerciais e informação sujeita a retenção prolongada”.

Michael Osborne partilha o diagnóstico e acrescenta um dado temporal: o risco não é hipotético. “As organizações devem também ter em conta que os ataques to tipo ‘harvest now, decrypt later’ já são uma realidade”, afirma. “Quanto mais cedo iniciarem a sua jornada rumo à adoção de soluções quantum-safe, melhor preparadas estarão para mitigar esse risco”.

Bruno Gonçalves, Cybersecurity & Public Safety Business Unit Manager da Warpcom, aponta um equívoco que observa junto de clientes portugueses: o de assumir que atualizar infraestrutura resolve automaticamente o problema. “Ter suporte para uma tecnologia não significa estar protegido por ela”, resume. Uma aplicação pode passar a suportar algoritmos pós-quânticos e continuar, na prática, a usar os mecanismos antigos, porque a nova funcionalidade nunca chegou a ser ativada.

O maior obstáculo

À medida que cresce a oferta de soluções quantum- safe, cresce também o número de mecanismos proprietários que reivindicam proteção equivalente às normais oficiais. Michael Osborne aponta que “as normas publicadas pelo NIS, como a FIPS 203 (ML-KEM), a FIPS 204 (ML-DAS) e a FIPS 205 (SLHDAS), são o resultado de quase uma década de rigoroso escrutínio internacional”. As alternativas proprietárias, acrescenta, “não beneficiam do mesmo nível de análise pública formal, nem da mesma interoperabilidade alargada no ecossistema tecnológico”.

A posição da NetApp segue uma direção semelhante e Henrique Silva e Tiago Andrade explicam que “a designação quantum-safe não substitui a normalização e a validação independente”. Isso não significa, sublinham, que uma solução proprietária seja insegura, apenas que essa equivalência tem de ser demonstrada e não presumida.

O peso desta discussão extravasa os fornecedores de segurança. A Google fixou março de 2026 como o momento de definir 2029 como prazo de migração completa para PQC em toda a sua infraestrutura, alinhando-se com o compromisso já assumido pela Cloudflare. A questão que persiste é quanto dessa proteção cobre sistemas fora do hyperscaler, como identidade, assinatura de código, VPN, legacy e on-premises, onde, segundo as três empresas contactadas, a exposição real se concentra.

Questionados sobre o principal entrave à migração, a IBM e a NetApp explicam que a dificuldade central já não é a viabilidade dos algoritmos, mas a complexidade acumulada em décadas de infraestrutura híbrida. “O principal desafio para a maioria das organizações é gerir a enorme complexidade dos ambientes híbridos de IT”, diz Michael Osborne, notando que a sensibilização das lideranças aumentou “graças à atenção regulatória da União Europeia”, mas transformar isso em ação exige “ferramentas eficazes de descoberta e uma clara atribuição de responsabilidades”.

Henrique Silva e Tiago Andrade descrevem um obstáculo semelhante, com uma nuance sobre perceção de risco. “O principal obstáculo é a combinação entre complexidade dos sistemas legados e uma perceção insuficiente de urgência. Muitas organizações reconhecem o risco, mas ainda não o converteram num programa estruturado, com responsabilidades, prioridades e orçamento”, referem.

 

“A banca e a defesa são os setores onde sentimos maior sensibilização para este tema”


Bruno Gonçalves, Cybersecurity & Public Safety Business Unit Manager da Warpcom

Bruno Gonçalves acrescenta uma leitura sobre a distribuição setorial dessa maturidade em Portugal. “A banca e a defesa são os setores onde sentimos maior sensibilização para este tema”, nota o responsável da Warpcom, atribuindo a diferença à natureza da informação protegida e à existência de equipas especializadas. Já a saúde, a energia e as utilities, diz, “já deveriam estar a dar maior prioridade a este risco”, pela sensibilidade da informação clínica e pela criticidade e longos ciclos de vida dos sistemas nesses setores.

Por onde começar com o orçamento que há

Quando confrontados com a pergunta mais prática – por onde deve um CISO português começar com o orçamento de que dispõe –, as respostas da IBM convergem quase ponto por ponto. “Pelo inventário criptográfico”, respondem Henrique Silva e Tiago Andrade. “É essencial identificar onde estão utilizados algoritmos, certificados e chaves, quais os dependentes e que dados necessitam de permanecer confidenciais durante mais tempo. Sem esse mapa, não é possível definir prioridades nem orçamentar a transição”, explicam.

Michael Osborne propõe uma sequência em três etapas: “criar visibilidade”, com um inventário e um Cryptographic Bill of Materials; “alinhar as equipas”, definindo responsabilidades entre tecnologia, negócio e aprovisionamento; e só depois “executar a mudança com arquiteturas de crypto-agility integradas na modernização tecnológica”.

Sobre o impacto no desempenho, a IBM desvaloriza a capacidade de processamento como fator crítico. Michael Osborne nota que “as principais considerações operacionais não estão relacionadas com a capacidade de processamento em si, mas sobretudo com os tamanhos das chaves e das assinaturas digitais”. A NetApp remete a resposta para o terreno: o impacto “varia significativamente consoante o algoritmo, o protocolo, a arquitetura e o caso de utilização”, dizem Henrique Silva e Tiago Andrade, devendo ser medido “através de testes controlados e provas de conceito”.

O prazo de dezembro de 2026 pede às organizações portuguesas que esse mapeamento esteja iniciado, com os responsáveis nomeados e um plano aprovado, não que a migração esteja concluída. É uma fasquia mais baixa do que a ideia de resolver a criptografia pós-quântica de uma vez, mas é também a primeira em que adiar deixa de ser uma opção silenciosa, e passa a ser uma decisão que terá de ser justificada perante reguladores, clientes e seguradoras.


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