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Trump admite ação cyber dos EUA na Venezuela

Donald Trump afirmou que os EUA desligaram a eletricidade em Caracas através de “uma certa especialização”, sugerindo o uso de capacidades cibernéticas na operação que levou à captura de Nicolás Maduro.

04/01/2026

Trump admite ação cyber dos EUA na Venezuela

O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, sugeriu que Washington recorreu a capacidades cibernéticas ou a outras capacidades técnicas avançadas para interromper o fornecimento de eletricidade em Caracas durante a operação que culminou com a captura do presidente venezuelano Nicolás Maduro. A afirmação foi feita na manhã de 3 de janeiro, durante o discurso inicial da conferência de imprensa realizada em Mar-a-Lago.

- “Estava escuro, as luzes de Caracas estavam em grande parte desligadas devido a uma certa especialização que temos. Estava escuro e foi mortal”, afirmou Trump, numa referência que especialistas em segurança interpretam como compatível com o uso de operações no domínio cibernético para neutralizar infraestruturas críticas antes da entrada de forças militares.

Caso se confirme, este episódio representaria uma das raras ocasiões em que capacidades cibernéticas norte-americanas são publicamente associadas, ao mais alto nível político, a uma operação militar em território estrangeiro. Este tipo de operações é, regra geral, classificado e raramente comentado por responsáveis políticos.

Durante a mesma conferência de imprensa, o general John Daniel Caine, Chefe do Estado-Maior Conjunto, afirmou que o U.S. Cyber Command, o U.S. Space Command e outros comandos militares “começaram a sobrepor diferentes efeitos” com o objetivo de “criar um caminho” que permitisse a entrada das forças norte-americanas no espaço aéreo venezuelano. O responsável não detalhou a natureza desses “efeitos” nem confirmou explicitamente o recurso a ciberataques.

O general John Daniel Caine, chefe do Estado-Maior Conjunto das Forças Armadas dos Estados Unidos, durante a conferência de imprensa sobre a operação na Venezuela.

Questionados posteriormente, porta-vozes da Casa Branca, do U.S. Cyber Command e do U.S. Space Command não prestaram esclarecimentos adicionais sobre eventuais operações cibernéticas associadas à ofensiva.

Dados do grupo independente NetBlocks, especializado na monitorização de conectividade global à Internet, indicam que Caracas registou perdas significativas de conectividade durante os cortes de energia ocorridos na madrugada da operação. Segundo Alp Toker, fundador da NetBlocks, caso essas interrupções tenham resultado de ações cibernéticas, estas teriam sido altamente direcionadas, sem impacto significativo no restante espaço de rede do país.

A operação ocorre num contexto em que infraestruturas críticas venezuelanas têm sido alvo de incidentes cibernéticos recorrentes. Em dezembro, a petrolífera estatal PDVSA acusou o governo dos EUA de estar envolvido num ciberataque que causou atrasos em operações petrolíferas a nível nacional. A administração norte-americana não confirmou nem negou publicamente qualquer envolvimento nesse incidente, e a PDVSA afirmou que as suas instalações não sofreram danos físicos.

O precedente mais conhecido, e de maior impacto,  de alegadas operações cibernéticas dos Estados Unidos contra a Venezuela remonta a março de 2019, quando um apagão de grandes dimensões deixou quase todo o país sem eletricidade durante vários dias, afetando serviços essenciais e comunicações. O governo de Nicolás Maduro atribuiu então a falha a um ciberataque dirigido às infraestruturas do sistema elétrico , em particular à central hidroelétrica de Guri. Washington negou qualquer envolvimento, sustentando que o colapso resultou de infraestruturas obsoletas e falta de manutenção.

Os Estados Unidos são amplamente reconhecidos como um dos Estados com maior capacidade ofensiva no ciberespaço, em particular através do U.S. Cyber Command, cuja missão inclui a condução de operações cibernéticas defensivas e ofensivas em apoio a objetivos militares e estratégicos. A referência direta de Trump ao shutdown em Caracas reforça a crescente integração entre operações cibernéticas, espaciais e cinéticas em cenários de conflito moderno, especialmente no contexto de operações híbridas que combinam ações militares convencionais com efeitos digitais sobre infraestruturas críticas.


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