Opinion
Durante anos, em muitas organizações, a cibersegurança foi tratada como um tema essencialmente técnico e reativo
Por Ricardo Oliveira, CSO da Eurotux . 23/01/2026
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Protegia-se os sistemas considerados críticos, respondia-se a incidentes quando algo corria mal, e confiava-se que, por si só, os contratos com os fornecedores seriam garantia suficiente de segurança. A entrada em vigor da NIS2 vem alterar profundamente esta abordagem, e são as equipas de Tecnologias de Informação (TI) que mais vão sentir essa mudança no dia a dia. A primeira grande alteração trazida pela NIS2 é a forma como se olha para o risco. Até aqui, a maioria das organizações concentrava-se nos ativos “mais importantes”, ou seja, servidores centrais, bases de dados críticas ou aplicações core do negócio. O problema é que a experiência tem demonstrado que muitos incidentes graves não começam nesses ativos. Começam em pontos aparentemente secundários, como um equipamento mal configurado, um sistema esquecido, ou uma impressora ligada à rede sem as devidas salvaguardas. A NIS2 é clara: já não basta proteger o que é crítico à primeira vista. É necessário identificar todos os ativos, avaliar os riscos associados e definir medidas proporcionais para cada um deles. Para as equipas de TI, isto significa uma mudança estrutural na forma de mapear, conhecer e gerir o ambiente tecnológico como um todo. A segunda grande mudança está na forma como as organizações passam a encarar a sua cadeia de fornecimento. Fornecedores e parceiros deixam de ser um “ponto cego” em termos de cibersegurança. A NIS2 obriga as empresas a avaliar o risco que terceiros representam e a definir critérios mínimos de segurança. Não se trata apenas de confiar que “o fornecedor faz bem o seu trabalho”, mas de exigir evidências de maturidade: processos, práticas, dimensão adequada das equipas ou até certificações, quando aplicável. Para as equipas de TI, isto implica um envolvimento muito maior nos processos de seleção, avaliação e acompanhamento de fornecedores, especialmente quando estes têm acesso a sistemas críticos ou a dados sensíveis. Outra transformação relevante prende-se com a gestão de incidentes. Tradicionalmente, muitos incidentes eram tratados “a quente”, em modo de emergência, com equipas a reagirem sob pressão para resolver o problema imediato. A NIS2 muda este paradigma ao exigir preparação prévia. Ter planos de resposta a incidentes, procedimentos documentados, responsabilidades claramente atribuídas e exercícios regulares deixa de ser opcional. As equipas de TI passam a ter de treinar cenários, testar decisões e garantir que, quando um incidente acontece — porque vai acontecer — a resposta é mais rápida, coordenada e eficaz. Por fim, a diretiva reforça a importância da continuidade do negócio. Nem todos os incidentes são ataques informáticos: falhas de energia, problemas em datacenters, ou interrupções em serviços críticos fazem parte da realidade. A NIS2 obriga as organizações a pensarem antecipadamente na forma de garantir que o negócio continua a funcionar, ainda que de forma limitada, e como recuperar num prazo aceitável. Isto é especialmente crítico não apenas para as grandes organizações, mas também para empresas que são fornecedores de entidades essenciais. Uma falha aparentemente “pequena” pode ter um impacto em cadeia significativo. No fundo, o que a NIS2 traz às equipas de TI não é apenas mais obrigações regulatórias. Traz uma mudança de mentalidade. Passa-se de uma lógica reativa para uma abordagem estruturada, preventiva e integrada, na qual a cibersegurança, a gestão de risco e a continuidade do negócio deixam de ser temas isolados e passam a fazer parte da estratégia global da organização. Para muitas equipas, este será um desafio exigente, mas também uma oportunidade para elevar o papel da TI a um verdadeiro pilar de resiliência e confiança no negócio. |