O ecossistema da cibersegurança em Portugal vive uma profunda transformação regulatória. Com o novo Regime Jurídico da Cibersegurança, aprovado pelo decreto-Lei n.º 125/2025 e em vigor desde 3 de abril de 2026, a Administração Local passou a operar sob prazos exigentes de identificação, registo na plataforma MyCiber e implementação de medidas mínimas de segurança
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Contudo, ao analisarmos este contexto sob o prisma das autarquias, importa fazer um diagnóstico estritamente realista. A verdadeira resiliência tecnológica não se decreta no Diário da República; constrói-se na matriz operacional das instituições. Para darmos um salto qualitativo real, é preciso enfrentar três desafios estruturais: a burocratização da conformidade, o risco de lock-in tecnológico e as assimetrias de liderança e de literacia digital que ainda fraturam a estrutura organizacional e que exigem formação transversal e sensibilização contínua das equipas. 1. O risco do "Teatro da Conformidade"O primeiro grande desafio reside na tentação de transformar o cumprimento normativo num exercício puramente burocrático: o "teatro da conformidade". Perante a ameaça de coimas e a pressão de auditorias centradas em evidência documental, muitas organizações esgotam os seus escassos recursos na produção de manuais extensos e na marcação obsessiva de caixas de seleção, sem impacto real na redução de risco. O novo regime é exigente e alarga de forma significativa o universo de entidades abrangidas, reforçando obrigações de governação, gestão de risco, continuidade de negócio e reporte de incidentes. Com a publicação do Regulamento n.º 756/2026, que concretiza a aplicação do regime e operacionaliza a MyCiber, inicia-se uma fase em que as autarquias têm de se autoidentificar, qualificar e organizar internamente os seus mecanismos de governação da cibersegurança. Apesar dos esforços de clarificação do CNCS, incluindo sessões públicas e um webinar dedicado à utilização da plataforma, persistem dúvidas práticas relevantes. No setor público, cada decisão estruturante implica aprovação em assembleia municipal, publicação em Diário da República e custos associados, num contexto de prazos legais apertados. Na prática, muitas câmaras municipais veem-se obrigadas a decidir sob incerteza regulatória residual, entre travar investimentos críticos ou avançar sem total segurança de alinhamento com a interpretação futura das autoridades. Este cenário reforça uma ideia essencial: a conformidade deve ser consequência natural de uma infraestrutura madura, não um fim burocrático em si mesmo. Um plano de continuidade aprovado formalmente, mas sem exercícios de simulação conceptual baseados em cenários (tabletop), testes de recuperação sob pressão ou validação real de tempos de reposição, tem valor residual. A segurança mede-se por indicadores operacionais concretos: o RTO (Recovery Time Objective ou Tempo Objetivo de Recuperação) e o RPO (Recovery Point Objective ou Ponto Objetivo de Recuperação) reais coincidem com os do papel? Existem exercícios anuais de resposta a incidentes? A segmentação crítica pode ser aplicada em minutos, em contexto de stress? 2. Gestão de risco e soberania digital: além do lock-inO segundo eixo crítico prende-se com a resistência estrutural em desenhar estratégias de soberania digital nos municípios, perpetuando uma dependência crónica face a grandes fornecedores tecnológicos internacionais. Esta abordagem alimenta cenários de lock-in que limitam a autonomia das autarquias, reduzem a margem de decisão técnica e condicionam orçamentos com licenciamentos rígidos. Importa sublinhar que o novo regime jurídico não impõe um modelo tecnológico específico; o que exige é governação robusta sobre terceiros, fluxos de dados, cadeia de fornecimento e notificação célere de incidentes. A questão não é, por isso, uma disputa ideológica entre software proprietário e soluções abertas. Trata-se de gestão de risco. A resiliência local robustece-se quando existe capacidade de escolha, portabilidade de dados e transparência sobre a forma como a informação é tratada ao longo da cadeia tecnológica. Planos de saída realistas significam mapear, desde o início, como migrar dados, identidades e registos entre fornecedores, quanto tempo e custo isso implica e que competências internas são necessárias para o fazer. Para a Administração Local, isto traduz-se em arquiteturas híbridas, na manutenção sob controlo direto dos serviços e dados verdadeiramente críticos e na preparação de estratégias de saída documentadas para os principais fornecedores de cloud e software essencial. Mitigar o risco de terceiros exige manter controlo efetivo sobre tecnologia, dados e capacidade de transição. 3. A complexidade orgânica e os ciclos institucionaisPor fim, o verdadeiro calcanhar de Aquiles reside na própria cultura de governação e nas assimetrias de enquadramento do emprego público. O novo regime obriga à designação de um Responsável de Cibersegurança ou Responsável de Segurança, comunicado ao CNCS, como figura de contacto e garante técnico da implementação das medidas. Contudo, não existe hoje uma carreira específica para esta função na tabela geral da Função Pública; é um papel acumulado sobre categorias existentes, com responsabilidade formal elevada mas enquadramento remuneratório e hierárquico muitas vezes desajustados face ao risco assumido. Esta assimetria é frequentemente acentuada por modelos de hierarquia verticalizada, comuns no setor público, onde a direção técnica ou executiva se encontra excessivamente distante do terreno e da prática diária das operações. Existem, sem dúvida, excelentes exemplos de articulação e sensibilidade nas lideranças autárquicas, mas a orgânica geral tende a isolar o Responsável de Segurança numa linha paralela, retirando-lhe a legitimidade transversal necessária para influenciar o desenho de novos projetos e a dotação orçamental desde a génese. Este cenário é influenciado pela própria natureza dos ciclos políticos, cujo horizonte temporal de curto prazo privilegia, de forma natural, projetos com visibilidade direta para o munícipe. Como a cibersegurança eficaz é, por definição, discreta — o seu maior sucesso consiste precisamente em evitar que as ruturas aconteçam —, torna-se um desafio complexo para as equipas técnicas justificar investimentos estruturais preventivos de longo prazo. Romper com este ciclo exige uma nova abordagem de partilha de risco entre a área técnica e os órgãos deliberativos. Conclusão: o caminho para a maturidadePara sair, em definitivo, do teatro regulatório, a Administração Local deve adotar três passos práticos imediatos:
A maturidade cibernética da Administração Local não se medirá pelo rigor com que preenche relatórios, mas sim pela coragem política e técnica para reformar o modelo estrutural de quem protege o Estado no seu ponto mais próximo do cidadão. |
André Assunção
IT Manager & Cybersecurity Specialist
CM Gaia
André Assunção é Especialista de Sistemas e TI e Responsável de Cibersegurança Municipal, com mais de 25 anos dedicados à governação, risco e conformidade autárquica. Paralelamente, é atleta master internacional, medalhado em representação de Portugal. Move-o, a nível profissional e desportivo, o foco rigoroso e a robustez operacional
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