ITS Conf

Major-General João Vieira Borges: “A corrida aos recursos de IA está a determinar o equilíbrio de poder” (com vídeo)

Entre redes de dados e drones, o futuro do poder global está a desenhar-se no campo de batalha ucraniano. Para o Major-General João Vieira Borges, a inteligência artificial e a robótica deixaram de ser instrumentos de apoio militar para se tornarem forças que moldam economias, políticas e estratégias

Por Inês Garcia Martins . 23/10/2025

Major-General João Vieira Borges: “A corrida aos recursos de IA está a determinar o equilíbrio de poder” (com vídeo)

A guerra na Ucrânia tornou-se, nas palavras do Major-General João Vieira Borges, o maior e mais recente campo de testes tecnológicos. Na IT Security Conference 2025, o antigo comandante da artilharia antiaérea portuguesa afirmou que a inteligência artificial e os sistemas autónomos estão a redesenhar a forma de combater e o equilíbrio de poder mundial.

“A guerra e o caso da Ucrânia continuam a ser o grande acelerador da história”, até porque as disrupções políticas, sociais, económicas e tecnológicas estão a convergir num mesmo ponto: a substituição gradual da força humana pela máquina. Apesar de discordar da previsão do general norte-americano Mark Milley, que antecipou que um terço das Forças Armadas dos Estados Unidos seria robotizado nos próximos 15 anos – Vieira Borges reconhece que essa transformação é inevitável, embora mais gradual. “O mundo está atualmente a viver a maior mudança fundamental da história da humanidade com o surgimento da IA e da robótica”, observa.

A guerra como laboratório tecnológico

O que distingue este conflito, explica, é o modo como a indústria civil passou a liderar a inovação militar. A transferência de tecnologia do setor privado para campo de batalha permitiu inverter a lógica da Guerra Fria e expôs uma nova dependência das forças armadas face às empresas tecnológicas. Drones, robôs, redes de dados e sistemas de comando C4I estão a ser atualizados semanalmente no terreno. “As tecnologias emergentes e disruptivas compensam desequilíbrios de pessoal e de armamento. Alteram táticas, doutrinas, formação, treino, logística e a própria organização para o combate”, descreve.

No entanto, Vieira Borges afirma que “os instrumentos tecnológicos não são armas”, contrapondo-se à tendência de reduzir a inteligência artificial a um mero componente bélico. Até porque “a IA, a computação quântica e a nanotecnologia são instrumentos tecnológicos” e defende que a arma continua a ser o sistema humano que as opera.

A relação homem-máquina é considerada um dos aspetos mais complexos da evolução tecnológica militar, que vai continuar a ser debate nas discussões das Relações Unidas. O especialista revela ainda a perspetiva do Japão em fóruns internacionais, que defende que a tecnologia pode ser mais fiável no cumprimento dos direitos humanos e das convenções do que o próprio ser humano, uma vez que “a tomada de decisão dos comandantes com orientação política para atingir determinados objetivos faz com que não cumpram as convenções, já a máquina cumpre”.

Além do campo de batalha

A revolução ocorre também fora do campo de batalha. Vieira Borges refere que “a IA está a remodelar não só a parte económica, mas a parte política, a corrida dos recursos de IA e a capacidade de os negar aos rivais está a determinar o equilíbrio de poder”. Computação quântica e nanotecnologia trazem benefícios à sociedade civil, mas apresentam riscos, sobretudo quando há “exploração maliciosa desses instrumentos, agregados ou não a sistemas de armas”. Por isso, alerta para a necessidade de “olhar sempre num sentido positivo e encontrar os antídotos para que não sejam usadas para objetivos que vão contra os valores que nós defendemos, sobretudo na Europa”.

Sobre a dimensão legal das novas tecnologias bélicas, Vieira Borges sublinha a necessidade de atualizar normas internacionais. Segundo o especialista, “temos novas armas, com apoio de novos sistemas exponenciais de tecnologia, não só em termos do seu desenvolvimento, mas sobretudo em termos do timing. Cada vez se desenvolve mais rapidamente”. O antigo comandante alerta que estas mudanças exigem a revisão das Convenções de Genebra ou a criação de novos protocolos adaptados aos novos tempos, reconhecendo que tais ajustes só vão acontecer, inevitavelmente, depois da guerra.

IA na linha da frente e dilemas éticos

Na Ucrânia, a IA já atua em “reconhecimento e vigilância, drones autónomos em combate, defesa aérea, guerra eletrónica e ciber, simulação”. “Esta é a primeira guerra convencional de alta intensidade em que drones e robôs combatem lado a lado”, afirma, lembrando dezembro de 2024, quando um pelotão russo foi destruído por drones ucranianos. “A decisão de um ataque não é apenas militar; é também dos engenheiros e das empresas que desenvolvem os sistemas”, alerta, citando acidentes com drones que confundiram alvos civis e militares.

A guerra eletrónica e os sistemas antidrones estão a crescer ao mesmo ritmo das armas autónomas, mas a evolução tecnológica não resolve os dilemas morais. O Major-General refere-se, aliás, ao caso de empresas como a Google, que recusam colaborar com a indústria militar, e defendeu que as implicações éticas e legais da IA devem ser discutidas “a diferentes níveis”, desde a engenharia ao direito internacional.

A inteligência artificial está a tornar-se, nas palavras do especialista, “um motor de inovação” que exige novos investimentos em energia, autonomia estratégica e investigação aplicada. A fronteira entre ciberdefesa, guerra híbrida e poder político tornou-se indistinta, com a IA a assumir um papel central não apenas nas operações militares, mas também na manipulação da “narrativa política e estratégica, que tem a ver com desinformação”.

“O mundo mudou. Mudou o geopolítico, o geoestratégico, o geoeconómico. Mudaram as relações de poder, mudaram as regras”, declara. Para Vieira Borges, a tecnologia tornou-se “um importante fator de poder onde devemos investir”, não apenas por ambição, mas por sobrevivência. A guerra na Ucrânia revelou um futuro em que o domínio tecnológico substitui o domínio territorial, e onde a supremacia digital é tão decisiva quanto a força militar.


NOTÍCIAS RELACIONADAS

REVISTA DIGITAL

IT SECURITY Nº27 DEZEMBRO 2025

IT SECURITY Nº27 DEZEMBRO 2025

NEWSLETTER

Receba todas as novidades na sua caixa de correio!

O nosso website usa cookies para garantir uma melhor experiência de utilização.