Opinion

Quando um ataque informático pode parar fábricas, comboios ou desligar as luzes da nossa casa

A cibersegurança já não é apenas um desafio das grandes empresas de tecnologia ou das chamadas “infraestruturas críticas”. Com a digitalização da indústria e a interligação crescente entre fornecedores, clientes e parceiros, qualquer elo da cadeia de abastecimento pode ser um alvo, e isto tem impacto em todos nós, população em geral, consumidores dos mais variados serviços

Por António Ribeiro, responsável de Cibersegurança, na IndraMind Cibersecurity, em Portugal (Indra Group) . 29/10/2026

Quando um ataque informático pode parar fábricas, comboios ou desligar as luzes da nossa casa
IndraMind Cibersecurity

Nos últimos anos, os ciberataques ao setor industrial têm vindo a ganhar destaque, colocando a indústria entre os setores mais afetados pelas ameaças cibernéticas. Os incidentes podem ter impactos significativos no funcionamento das organizações, desde interrupções nos processos de produção e nas operações logísticas até paragens de serviço e perdas económicas. Nos cenários mais graves, podem mesmo afetar variáveis relacionadas com a segurança, a qualidade ou a continuidade dos serviços. Para além dos prejuízos financeiros, que podem atingir milhões de euros, estes ataques colocam também em causa a confiança das pessoas e a resiliência dos serviços essenciais.

O problema não é apenas tecnológico. Muitas empresas do setor continuam a utilizar sistemas legacy, concebidos para funcionar durante décadas e sem os requisitos de cibersegurança que a sua conectividade atual exige. Atualizá-los ou substituí-los nem sempre é fácil, especialmente quando a operação não pode ser interrompida. A esta realidade somam-se as limitações de recursos especializados e os riscos associados às ligações com fornecedores e aos acessos remotos. 

Perante estas limitações, um Centro de Operações de Segurança (SOC) com capacidades integradas de IT e OT permite abordar a proteção com uma visão conjunta de ambos os ambientes, desde os servidores e as redes corporativas até aos sistemas que controlam equipamentos e processos industriais. Esta integração ajuda a relacionar sinais de ameaça, a detetar possíveis movimentos dos atacantes entre redes e a coordenar uma resposta adaptada às exigências de disponibilidade e segurança da indústria. O seu principal valor reside na proteção da operação e na redução do risco de interrupções, contribuindo para preservar a continuidade dos serviços e processos críticos que sustentam a atividade das organizações e o funcionamento da sociedade.

Para pôr esta proteção em prática, a deteção e a resposta devem ser complementadas com medidas de recuperação adaptadas ao ambiente industrial: cópias de segurança verificadas, sistemas redundantes onde forem necessários e planos de recuperação testados. Desta forma, caso ocorra um incidente, a organização poderá conter o seu alcance e restabelecer os processos afetados de forma segura, reduzindo o impacto sobre a sua atividade e os serviços que presta, reforçando assim a confiança de clientes, parceiros e outras partes interessadas. 

Não se trata apenas de «proteger os dados», mas sim de garantir que fábricas, hospitais, transportes e serviços públicos continuem a funcionar de forma segura e contínua. Um ciberataque pode não roubar dinheiro da conta do cidadão comum, mas pode interromper o fornecimento de eletricidade em casa, atrasar os transportes ou comprometer a qualidade da água que bebemos.

A boa notícia é que a indústria está a começar a tomar consciência deste desafio. A crescente sofisticação das ameaças cibernéticas e o impacto que estas podem ter nas operações estão a levar cada vez mais organizações a reforçar os seus investimentos em proteção digital. Isto exige a combinação de várias medidas: reforçar a segurança dos acessos remotos, a segmentação das redes e dispor de um SOC com capacidades integradas de IT e OT, capaz de detetar ameaças desde a rede corporativa até à linha de produção e coordenar uma resposta adaptada a cada ambiente. 

Este caminho não é fácil. A escassez de profissionais especializados e a necessidade de modernizar muitos sistemas industriais exigem que se priorizem as ações sem comprometer a operação. Avançar requer uma resposta coordenada e a colaboração entre empresas, fornecedores de tecnologia, entidades reguladoras e especialistas, com medidas adaptadas às necessidades de cada ambiente industrial.

A adoção do SOC com capacidades integradas de IT e OT é um componente fundamental da proteção industrial. Juntamente com as medidas de prevenção e recuperação, contribui para proteger as cadeias de abastecimento, reduzir o risco de interrupções no fornecimento de bens e serviços e preservar a confiança no tecido industrial que sustenta a nossa economia e a nossa vida quotidiana.


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