Analysis

Ciberataques afetam saúde mental dos trabalhadores em 81% das empresas

O “Hiscox Cyber Readiness Report 2026” revela que 81% das empresas portuguesas vítimas de ciberataques identificaram consequências negativas para os colaboradores, mais 13 pontos percentuais do que em 2025. Stress, absentismo e ambientes de trabalho tóxicos estão entre os principais impactos

23/10/2026

Ciberataques afetam saúde mental dos trabalhadores em 81% das empresas
Jadon Bester/peopleimages.com / AdobeStock

Os ciberataques estão a ter consequências cada vez mais significativas na saúde mental e no bem-estar dos trabalhadores portugueses. Segundo o “Hiscox Cyber Readiness Report 2026”, 81% das empresas nacionais que sofreram ataques informáticos identificaram efeitos negativos nos seus colaboradores, um aumento de 13 pontos percentuais face aos resultados de 2025.

O estudo revela que os impactos dos incidentes de cibersegurança ultrapassam os prejuízos financeiros, a interrupção das operações e os custos de recuperação dos sistemas. A pressão associada à resposta aos ataques está também a refletir-se no ambiente de trabalho, com as organizações a reportarem níveis elevados de stress, aumento das baixas por doença e situações de burnout.

A investigação foi realizada pela Hiscox em colaboração com a Wakefield Research e envolveu 6.800 profissionais de dez mercados, incluindo 250 inquiridos em Portugal. Os resultados nacionais dizem respeito a empresas com menos de 250 colaboradores, sendo os indicadores sobre consequências dos ataques relativos às organizações que foram vítimas de incidentes.

Stress e baixas por doença aumentam após ciberataques

Entre as empresas portuguesas afetadas por ciberataques, 44% identificaram níveis elevados de stress entre os trabalhadores, tornando esta a consequência negativa mais frequentemente reportada no estudo.

O desenvolvimento de ambientes de trabalho tóxicos foi referido por 32% das organizações, a mesma percentagem que identificou um aumento das baixas por doença. Por sua vez, 24% das empresas reportaram situações de burnout entre os colaboradores na sequência dos incidentes.

A comparação com os resultados de 2025 evidencia um agravamento de vários destes indicadores. A percentagem de empresas que associam os ciberataques a ambientes de trabalho tóxicos aumentou de 22% para 32%, enquanto a proporção das que identificaram um crescimento das baixas por doença passou de 20% para 32%.

Os níveis elevados de stress também aumentaram, embora de forma menos acentuada, passando de 41% para 44%. Em contrapartida, as situações de burnout registaram uma diminuição de nove pontos percentuais, de 33% para 24%.

Apesar desta redução, o indicador global de consequências negativas subiu para 81%, sugerindo que os efeitos dos ciberataques sobre os trabalhadores continuam a representar um desafio crescente para as organizações portuguesas.

Os resultados refletem a pressão que pode acompanhar a recuperação de um incidente, desde o restabelecimento dos sistemas e a gestão de informação comprometida até à necessidade de assegurar a continuidade das operações. Estas exigências podem prolongar-se para além da resolução técnica do ataque, afetando o funcionamento das equipas e a produtividade das empresas.

Entreajuda entre colaboradores também aumenta

Apesar do agravamento de vários indicadores relacionados com o bem-estar dos trabalhadores, o relatório identifica uma evolução positiva na forma como as equipas respondem aos incidentes.

Segundo a Hiscox, 71% das empresas portuguesas afetadas por ciberataques identificaram um reforço da entreajuda ou da lealdade dos colaboradores após os incidentes. O resultado representa um aumento de 26 pontos percentuais face aos 45% registados em 2025.

Os dados mostram que os ataques podem produzir efeitos distintos nas organizações, contribuindo simultaneamente para o desgaste emocional e para o reforço da cooperação entre trabalhadores.

Esta coexistência evidencia a importância da gestão interna dos incidentes, particularmente no que diz respeito à comunicação com os colaboradores, à distribuição de responsabilidades e ao apoio disponibilizado durante os períodos de maior pressão.

A capacidade de mobilizar as equipas para responder a um ataque pode reforçar a colaboração, mas os resultados sugerem que essa resposta deve ser acompanhada por medidas que evitem a acumulação de stress e o agravamento das condições de trabalho.

Recuperação deve incluir o bem-estar dos trabalhadores

Os resultados do “Hiscox Cyber Readiness Report 2026” colocam em evidência uma dimensão da resiliência cibernética que vai além da proteção dos sistemas e da recuperação dos dados.

Tradicionalmente, os planos de resposta a incidentes concentram-se na contenção das ameaças, na reposição dos serviços e na redução dos impactos financeiros e operacionais. No entanto, os indicadores apresentados pela Hiscox demonstram que a recuperação pode também envolver consequências para as pessoas responsáveis por assegurar a continuidade da atividade.

A integração do bem-estar dos trabalhadores nas estratégias de resposta a incidentes poderá ajudar as organizações a gerir a pressão sobre as equipas, particularmente quando a recuperação exige esforços prolongados ou alterações temporárias aos processos de trabalho.

O aumento das baixas por doença e dos ambientes de trabalho tóxicos reportado pelas empresas portuguesas reforça a relevância de considerar estes fatores nos planos de continuidade de negócio e de gestão de crises.

Os dados não permitem, contudo, estabelecer uma relação causal direta entre os ciberataques e cada uma das consequências identificadas. Os resultados refletem os impactos reportados pelas organizações inquiridas, não correspondendo a uma avaliação clínica da saúde mental dos trabalhadores.

Estudo abrange 250 profissionais em Portugal

O “Hiscox Cyber Readiness Report 2026” foi desenvolvido em colaboração com a Wakefield Research, com base em entrevistas realizadas a 6.800 profissionais de dez mercados, incluindo 250 participantes em Portugal.

O estudo abrange empresas com menos de 250 colaboradores. Nas organizações com menos de 50 trabalhadores, foram entrevistados proprietários, responsáveis principais ou sócios, enquanto nas empresas com 50 a 249 colaboradores participaram CIO, CISO, diretores de Segurança e diretores de IT.

O trabalho de campo decorreu entre 5 e 17 de junho de 2026, através de questionários online enviados por convite de e-mail.

A edição de 2026 reforça a importância de considerar os impactos humanos dos incidentes de cibersegurança, num contexto em que as organizações procuram melhorar a capacidade de prevenção, resposta e recuperação perante ataques informáticos.


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