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DFIR: entre a competência técnica e a realidade operacional

Em pouco tempo, um cibercriminoso pode ter acesso total aos sistemas críticos de uma organização e a diferença entre recuperar rapidamente ou colapsar por completo depende de uma capacidade que muitas empresas portuguesas ainda tratam como secundário: o Digital Forensics and Incident Response

Por Rui Damião . 02/10/2025

DFIR: entre a competência técnica e a realidade operacional

Quando um ataque de ransomware cifra uma rede inteira em menos de uma hora, a diferença entre sobreviver e colapsar está na capacidade de resposta imediata. O Digital Forensics and Incident Response (DFIR) deixou de ser uma especialidade técnica para se tornar numa competência crítica de sobrevivência empresarial.

Portugal encontra-se numa “posição curiosa” no panorama europeu de DFIR, como explica David Grave, Security Director da Claranet Portugal, porque o país é “tecnicamente competente, mas operacionalmente reativo”. Esta observação resume a realidade nacional: enquanto as instituições financeiras e grandes operadoras de telecomunicações já possuem capacidades sólidas, um segmento significativo de PME e entidades públicas mantém níveis reduzidos de maturidade.

 

Pedro Soares, Diretor Nacional de Segurança da Microsoft Portugal

Pedro Soares, Diretor Nacional de Segurança da Microsoft Portugal, contextualiza: “Portugal encontra-se num nível intermédio de maturidade em DFIR no contexto europeu. As empresas nacionais têm vindo a reforçar as suas capacidades de resposta a incidentes, mas ainda não atingem o grau de especialização de países como o Reino Unido ou os nórdicos”. A verdade é que a maioria das organizações nacionais só investe em DFIR depois do primeiro ataque significativo, tratando estas capacidades como o serviço de limpeza que se chama após o desastre.

Ameaças em evolução

A velocidade dos ataques modernos transformou radicalmente o panorama do DFIR. Segundo Pedro Soares, “o ransomware tornou-se mais rápido e destrutivo, de acordo com investigações da Microsoft, que mostram redes inteiras cifradas em menos de 45 minutos após a intrusão inicial”. Esta aceleração não é acidental; os atacantes desenham deliberadamente ataques para superar os tempos de resposta tradicionais.

“Os atacantes estão deliberadamente a desenhar ataques cada vez mais rápidos, sofisticados e furtivos”, explica David Grave. “Utilizam técnicas de livingoff- the-land e exploram ferramentas legítimas do sistema, o que torna a distinção entre atividade maliciosa e administrativa um pesadelo”. Esta evolução leva a que as equipas forenses já não procurem apenas malware óbvio, mas sim comportamentos anómalos em ferramentas que deveriam ser legítimas.

A complexidade aumentou exponencialmente com os ataques cloud-native. Como refere Christiam Carrillo, Cyber Threats Management Offering Leader da IBM SPG, “estamos a observar um aumento significativo em comprometimentos na cloud e violações na cadeia de abastecimento, que podem ter impactos em cascata em todo o ecossistema”. Estes ataques exploram credenciais, API e ambientes cloud distribuídos, tornando a recolha e análise de evidências substancialmente mais complexa.

Tiago Sousa, Team Leader da Equipa de Cyber Defense Operations da VisionWare

 

A Inteligência Artificial (IA) emergiu como uma nova arma para os cibercriminosos. Tiago Sousa, Team Leader da Equipa de Cyber Defense Operations da VisionWare, observa que “a utilização cada vez mais evidente de inteligência artificial por parte dos atacantes, seja para automatizar ataques de larga escala, criar código malicioso adaptativo ou criar campanhas de phishing altamente personalizadas e credíveis”. O resultado são investigações forenses que exigem correlação e validação muito mais sofisticadas do que no passado.

Os erros críticos das organizações portuguesas

O primeiro erro que as organizações portuguesas cometem é sistematicamente ignorado: confundir documentação com preparação. “O erro mais comum que observamos nas organizações portuguesas é a existência de planos de resposta que permanecem apenas no papel, sem nunca serem testados em exercícios práticos”, alerta Olga Carvalho, Senior Cybersecurity Consultant da Noesis. Pedro Soares, da Microsoft, é mais direto: “o erro mais frequente é a ausência de um plano formal e testado de resposta a incidentes. Muitas organizações não desenvolvem um playbook claro nem realizam exercícios regulares, o que as deixa vulneráveis quando enfrentam um ataque real”.

 

David Grave, Security Director da Claranet Portugal

O segundo erro são os silos departamentais que se transformam em barreiras fatais durante crises. “O maior obstáculo não é técnico, é político. São os silos”, constata David Grave, que acrescenta que “a equipa de IT, a de segurança, o departamento jurídico, os recursos humanos e a gestão de topo raramente falam a mesma língua ou têm os mesmos objetivos durante uma crise”. Christiam Carrillo reforça que “um dos obstáculos mais comuns é a falta de definição clara de funções, responsabilidades e caminhos de escalabilidade dentro dos programas de resposta a incidentes”.

O terceiro erro é técnico, mas com um impacto potencialmente devastador: os gaps críticos de visibilidade. Para David Grave, “muitas organizações têm uma obsessão com perímetros: investem fortunas em firewalls, mas não sabem o que se passa dentro da própria rede”. Pedro Soares identifica problemas específicos, como “cobertura incompleta de ferramentas de deteção. Ainda há organizações sem soluções modernas de EDR ou XDR em todos os dispositivos, ou sem um SIEM integrado, o que cria zonas de invisibilidade”.

Olga Carvalho, Senior Cybersecurity Consultant da Noesis

 

Particularmente preocupante é a deficiência em cloud forensics. Olga Carvalho aponta “visibilidade limitada em ambientes cloud e SaaS” como um problema para as organizações nacionais. “Em muitos casos, não existem logs de API, identidade ou telemetria de plataforma suficientes para suportar uma investigação eficaz”, diz. Esta lacuna torna-se crítica quando se considera que a maioria dos ataques modernos explora precisamente estes ambientes.

Automação ou humano?

A automação no DFIR não é uma opção; é uma necessidade de sobrevivência. David Grave, da Claranet Portugal, reforça que “se a automação sem expertise humana é perigosa, a expertise humana sem automação é inviável”. Esta dualidade define o futuro das investigações forenses.

O consenso entre especialista é claro onde a automação é superior. Christiam Carrillo explica que a “automação desempenha um papel crítico nas investigações forense modernas. Permite velocidade e escala ao recolher evidências, correlacionar alertas e lidar com tarefas repetitivas ou sensíveis ao tempo”. Pedro Soares, da Microsoft, reforça que se deve “utilizar a automação para tarefas repetitivas e técnicas, libertando os analistas para se focarem em decisões mais complexas e estratégicas”.

Contudo, a intervenção humana mantém-se insubstituível nas decisões críticas. “A experiência dos analistas é determinante para interpretar o contexto, identificar padrões novos, definir prioridades e coordenar equipas”, afirma Pedro Soares. Olga Carvalho, da Noesis, especifica que as “decisões estratégias e complexas continuam a depender do fator humano. Atividades como engenharia reversa de malware, correlação de evidências, validação de hipóteses de ataque ou comunicação com clientes, reguladores e autoridades não podem ser totalmente automatizadas”.

A IA está a revolucionar este equilíbrio. Pedro Soares antecipa que as soluções “já ajudam os analistas a sintetizar grandes volumes de dados e a sugerir ações. É expectável que, dentro de três a cinco anos, assistentes baseados em IA estejam amplamente integrados nos centros de operações de segurança”.

O modelo híbrido entre humano e máquina emerge como a solução ideal: automatizar a triagem, recolha e análise inicial, reservando para especialistas humanos as interpretações complexas e decisões estratégicas que definem o sucesso ou o fracasso da resposta a incidentes.

O que os responsáveis de cibersegurança devem fazer

A pressão regulatória está a acelerar e as organizações não têm tempo a perder. Pedro Soares refere que “normas como a DORA e a NIS2 vão impor requisitos mais exigentes em matéria de resiliência e reporte de incidentes. É fundamental que os CISO antecipem estas obrigações, implementando processos compatíveis com os prazos legais de notificação”.

David Grave vai mais longe e defende que o “DFIR deixou de ser uma especialidade técnica para se tornar numa competência crítica de sobrevivência empresarial”. Esta transformação exige ação imediata em três frentes prioritárias.

A primeira é a centralização e retenção adequada de logs. Olga Carvalho especifica que “superar estes gaps passa por investir em centralização de logs (SIEM/EDR/XDR), políticas de retenção adequadas e integração nativa com API de cloud, garantindo que as evidências ficam preservadas e acessíveis para suportar investigações completas e defensáveis”.

O segundo ponto é o teste regular e rigoroso de capacidades. Pedro Soares alerta que “exercícios de simulação e simulações em ambientes controlados são essenciais para validar os planos de ação, identificar pontos fracos e garantir que as equipas conseguem agir com precisão sob pressão”.

A terceira e última frente é a preparação para o futuro próximo da IA. “A integração de inteligência artificial e machine learning em ferramentas forenses será inevitável”, antecipa Tiago Sousa, da VisionWare. “Os CISO devem começar já a preparar as suas organizações para esta evolução, ao investir em formação especializada e tecnologias adaptadas a ambientes híbridos”.

 

Christiam Carrillo, Cyber Threats Management Offering Leader da IBM SPG

Christiam Carrillo, da IBM, resume a preparação necessária para os responsáveis de cibersegurança: “desenvolver planos de ação para incidentes que envolvam sistemas de IA, validar como os processos se vão adaptar e considerar a resiliência da IA como parte da estratégia mais ampla da cibersegurança”.

Resposta contínua

A mensagem dos especialistas é unânime e urgente: o tempo das meias-medidas no DFIR acabou. David Grave partilha uma realidade incontornável: “o DFIR vai deixar de ser ‘resposta a incidentes’ para se tornar ‘resposta contínua’, ou seja, não apenas como uma resposta reativa. A análise forense será proativa, integrada em atividades regulares de threat hunting”.

Esta transformação não é uma possibilidade distante e já está a acontecer. As organizações que continuam a tratar o DFIR como um ‘mal necessário’ pós-incidente arriscam-se a ficar vulneráveis quando a próxima crise chegar, descobrindo que os seus processos reativos são insuficientes face à velocidade e sofisticação dos ataques modernos.

Para os responsáveis de cibersegurança a escolha é simples, mas não é fácil: evoluir para capacidades de DFIR proativas e integradas, ou aceitar que a próxima crise pode ser a última. A maturidade de Portugal no contexto europeu representa simultaneamente uma oportunidade e um aviso. Temos a competência técnica para dar o salto, mas é preciso ter vontade operacional para o fazer antes de ser tarde demais.


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