Analysis

Extensão maliciosa do Claude Code no Cursor tentou instalar backdoor SSH persistente

A Microsoft identificou um mecanismo de acesso remoto persistente numa versão adulterada da extensão Claude Code, disponibilizada temporariamente no marketplace do Cursor. O código malicioso procurava instalar chaves SSH, estabelecer túneis reversos e manter o acesso aos equipamentos, mesmo depois da remoção da extensão

02/11/2026

Extensão maliciosa do Claude Code no Cursor tentou instalar backdoor SSH persistente
Sahriar / AdobeStock

Uma investigação da Microsoft Threat Intelligence revelou que uma versão maliciosa da extensão Claude Code, distribuída através do marketplace do Cursor, continha código JavaScript concebido para instalar um backdoor SSH persistente nos equipamentos dos utilizadores. O incidente, divulgado a 29 de outubro, constitui uma tentativa de ataque à cadeia de fornecimento de software, explorando a confiança dos programadores nas extensões utilizadas nos seus ambientes de desenvolvimento.

Segundo o Cursor, as versões adulteradas 2.1.312 e 2.1.313 da extensão anthropic.claude-code estiveram disponíveis no seu marketplace durante algumas horas, entre as 2h27 e as 13h35 de 29 de outubro, no horário da costa oeste dos Estados Unidos.

A Microsoft confirmou que os pacotes maliciosos não foram publicados nem distribuídos através do Visual Studio Marketplace ou do pacote oficial @anthropic-ai/claude-code no npm. A Anthropic confirmou igualmente à Microsoft que os seus sistemas não foram comprometidos e que não desenvolveu o pacote malicioso.

De acordo com os elementos disponíveis, o incidente terá ficado limitado ao marketplace do Cursor.

Código malicioso executava-se antes da extensão legítima

A análise da Microsoft identificou uma função JavaScript inserida no pacote adulterado, que era executada antes da inicialização normal da extensão. O código utilizava funcionalidades do Node.js para recolher informações sobre o equipamento, modificar ficheiros e executar comandos do sistema operativo.

O mecanismo malicioso começava por recolher dados sobre o dispositivo e o utilizador, incluindo o nome do computador, sistema operativo, arquitetura, diretório pessoal e endereço de email configurado globalmente no Git.

O código procurava também nomes de variáveis de ambiente que contivessem termos como KEY, TOKEN, SECRET, PASS, AWS ou GCP, até um máximo de 40 correspondências.

A Microsoft esclarece que o código analisado procurava transmitir os nomes dessas variáveis, e não os respetivos valores. Por isso, a recolha desta informação não constitui, por si só, prova de que os segredos armazenados nessas variáveis tenham sido roubados.

Depois da recolha inicial, o código tentava preparar o acesso remoto ao equipamento, configurar mecanismos de persistência e comunicar os dados obtidos à infraestrutura controlada pelos atacantes.

A extensão continuava a funcionar normalmente, enquanto o código malicioso procurava ocultar a sua atividade através da supressão de mensagens de erro e dos resultados dos comandos executados.

Backdoor recorria a duas chaves SSH e a um túnel reverso

O principal objetivo do código era estabelecer um mecanismo de acesso remoto persistente através de SSH. Para isso, o programa tentava adicionar uma chave pública Ed25519 ao ficheiro authorized_keys do utilizador, identificada pelo comentário svc-telemetry. Esta alteração permitiria autorizar ligações de quem possuísse a chave privada correspondente, desde que a configuração do serviço SSH do equipamento o permitisse.

Em paralelo, o código utilizava uma segunda identidade SSH, desta vez uma chave privada incorporada no próprio programa, para autenticar uma ligação de saída a um servidor controlado pelos atacantes.

Através dessa ligação, o malware procurava estabelecer um túnel SSH reverso, encaminhando ligações recebidas no servidor remoto para a porta 22 do equipamento comprometido.

Esta técnica permitia tentar alcançar o serviço SSH da máquina a partir de uma ligação iniciada pelo próprio dispositivo, sem depender de uma ligação direta de entrada através da rede da vítima.

O código incluía ainda mecanismos para manter a ligação ativa e tentar restabelecê-la após uma interrupção, com intervalos de 60 segundos entre tentativas.

A Microsoft sublinha, contudo, que a existência de um processo SSH em execução não significa necessariamente que os atacantes tenham conseguido aceder ao equipamento. O sucesso da operação dependia das permissões locais, da configuração do serviço SSH e das definições do servidor remoto.

Segundo o Cursor, erros de execução e requisitos de privilégios administrativos impediram o acesso SSH na maioria dos equipamentos macOS e Windows afetados. Ainda assim, o código poderia ter conseguido instalar chaves, criar mecanismos de persistência ou transmitir informações sobre os dispositivos.

Persistência adaptada a Windows, macOS e Linux

A investigação identificou diferentes mecanismos de persistência consoante o sistema operativo, permitindo que o código malicioso tentasse restabelecer o acesso remoto após o reinício do equipamento.

Em macOS, o programa criava um LaunchAgent associado ao ficheiro com.apple.sysmond.plist, configurado para executar um script e manter a ligação SSH ativa.

Em Linux, recorria a uma entrada @reboot no crontab do utilizador, destinada a executar novamente o script malicioso durante o arranque.

Nos sistemas Windows, o código tentava criar uma tarefa agendada com o nome SysMon, solicitando execução com privilégios de sistema. Como alternativa, podia instalar um ficheiro de comandos na pasta de arranque do utilizador.

Os nomes escolhidos procuravam assemelhar-se aos de componentes legítimos de monitorização, dificultando a identificação imediata da atividade maliciosa.

A Microsoft alerta que estes ficheiros e configurações eram criados fora do diretório da extensão, pelo que a simples atualização ou remoção do pacote adulterado não garante a eliminação do backdoor.

Microsoft recomenda investigação dos equipamentos expostos

Perante o incidente, a Microsoft recomenda que as organizações identifiquem os sistemas nos quais as versões 2.1.312 ou 2.1.313 da extensão Claude Code tenham sido instaladas ou atualizadas automaticamente através do marketplace do Cursor.

A investigação deve incluir a análise dos registos de instalação de extensões, processos executados, ligações de rede, alterações aos ficheiros SSH e mecanismos de arranque automático.

Entre os indicadores de compromisso divulgados pela Microsoft encontra-se o endereço IP 134.209.82[.]225, identificado como destino configurado para ligações SSH e comunicações HTTP. A empresa publicou também identificadores de ficheiros maliciosos, padrões de nomes e a impressão digital da chave SSH utilizada pelo código.

A presença isolada de um destes indicadores não constitui necessariamente prova de comprometimento, devendo ser analisada em conjunto com outros elementos de telemetria.

Nos equipamentos em que seja confirmada a execução do código malicioso, a Microsoft recomenda preservar os elementos necessários à investigação antes de proceder à remoção dos ficheiros, chaves SSH e mecanismos de persistência não autorizados.

A empresa aconselha igualmente a analisar eventuais acessos remotos, execução de comandos e atividade sobre ficheiros durante o período de exposição. Quando existirem indícios de acesso a credenciais ou não for possível restabelecer a confiança no equipamento, poderá ser necessário alterar credenciais, revogar sessões ou reinstalar o sistema.

Incidente reforça riscos associados aos marketplaces de extensões

O caso evidencia os riscos de ataques à cadeia de fornecimento dirigidos a ferramentas utilizadas por programadores, particularmente quando as extensões têm capacidade para executar código e interagir diretamente com o sistema operativo.

A Microsoft recomenda que as organizações que utilizam o Cursor adotem controlos de segurança sobre a instalação de extensões, incluindo a restrição a fornecedores aprovados e a definição de um período de espera antes da instalação de versões recentemente publicadas.

Este último mecanismo pode reduzir a exposição a atualizações maliciosas disponibilizadas durante períodos curtos, como aconteceu neste incidente.

A investigação demonstra também que um ataque deste tipo pode deixar alterações persistentes no equipamento, mesmo quando o pacote original deixa de estar disponível.

Embora a Microsoft não tenha confirmado que todos os passos do ataque tenham sido executados com sucesso nos sistemas expostos, a presença de código destinado a instalar chaves SSH, estabelecer túneis reversos e configurar mecanismos de arranque automático justifica, segundo a empresa, uma investigação aos equipamentos potencialmente afetados.


NOTÍCIAS RELACIONADAS

RECOMENDADO PELOS LEITORES

REVISTA DIGITAL

IT SECURITY Nº32 OUTUBRO 2026

IT SECURITY Nº32 OUTUBRO 2026

NEWSLETTER

Receba todas as novidades na sua caixa de correio!

O nosso website usa cookies para garantir uma melhor experiência de utilização.