Analysis
Investigação da NorForge identificou mais de 20 painéis Cairn associados a atividades maliciosas, incluindo campanhas contra plataformas de comércio eletrónico. Os agentes de IA conseguem identificar vulnerabilidades, explorar sistemas e estabelecer acessos persistentes
20/10/2026
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Uma investigação da NorForge revelou a utilização de agentes autónomos de Inteligência Artificial (IA) em operações de ciberataques dirigidas a organizações de vários países. A análise identificou mais de 20 painéis de controlo da plataforma Cairn, acessíveis publicamente e aparentemente associados a atividades maliciosas, que expõem detalhes sobre a seleção de alvos, exploração de vulnerabilidades e comprometimento de sistemas. A investigação, publicada a 19 de outubro de 2026, permitiu observar como diferentes grupos utilizam agentes de IA para automatizar várias fases de um ataque, desde o reconhecimento inicial até à instalação de mecanismos de acesso persistente. Os investigadores encontraram também credenciais, chaves de API e outras informações sensíveis relacionadas com as organizações visadas. Segundo a NorForge, os painéis expostos pertencem a diferentes operadores, alguns dos quais apresentam ligações entre si. Embora tenham sido identificadas utilizações legítimas da plataforma em operações de testes de intrusão, uma parte significativa da atividade analisada apresenta indicadores consistentes com campanhas criminosas. Cairn automatiza exploração de vulnerabilidades e acesso a sistemasO Cairn é uma plataforma baseada em IA que permite coordenar agentes para executar tarefas orientadas para objetivos específicos. Embora possa ser utilizada em testes de segurança autorizados, a investigação demonstra a sua aplicação em operações de intrusão. O funcionamento assenta na definição de um objetivo inicial, a partir do qual os agentes desenvolvem sucessivas ações para alcançar o resultado pretendido. Durante o processo, o sistema regista informações descobertas, decisões tomadas e resultados obtidos, permitindo que diferentes agentes partilhem conhecimento e ajustem as estratégias de exploração. Esta arquitetura possibilita a execução de cadeias de ataque que combinam várias técnicas, incluindo SQL Injection, contorno de mecanismos de autenticação, exploração de vulnerabilidades de desserialização e execução remota de código. Os operadores podem definir objetivos relativamente genéricos, deixando aos agentes a responsabilidade de identificar os caminhos técnicos necessários para os concretizar. A NorForge encontrou projetos nos quais os agentes receberam instruções para obter acesso a servidores, comprometer contas administrativas ou instalar Webshells, permitindo manter acesso aos sistemas depois da exploração inicial. Num dos casos analisados, dirigido a um grande retalhista norte-americano, o sistema indicava que tinha conseguido instalar uma Webshell. Os investigadores verificaram posteriormente a existência do ficheiro no servidor da organização visada. Grupo com 14 painéis realizou mais de 1.100 projetos de ataqueA NorForge identificou três conjuntos principais de atividade, designados AIA0001, AIA0002 e AIA0003, com diferentes características e objetivos. O grupo AIA0001 foi o mais ativo, com 14 painéis de controlo associados e mais de 1.100 projetos de ataque identificados. A investigação atribui-lhe um elevado grau de confiança quanto à natureza maliciosa das operações. As instruções utilizadas pelo grupo estavam predominantemente em chinês e os alvos concentravam-se sobretudo nos Estados Unidos, Japão e Austrália, embora também existissem referências a organizações canadianas. O objetivo principal aparentava ser a obtenção de acesso persistente a plataformas de comércio eletrónico e infraestruturas de pagamento, potencialmente para exploração financeira posterior. A seleção dos alvos apresentava um elevado grau de automatização. Segundo a NorForge, os operadores utilizavam ferramentas como o Playwright para verificar previamente o funcionamento de plataformas comerciais e confirmar a possibilidade de realizar encomendas. As organizações eram também selecionadas com base em indicadores de tráfego, antes de serem encaminhadas para os agentes responsáveis pela identificação e exploração de vulnerabilidades. Entre as ferramentas identificadas nos ambientes de execução encontravam-se Nmap, OWASP Amass, ffuf, Chromium, PHPGGC e diferentes utilitários de desenvolvimento e análise de aplicações Web. Os investigadores observaram ainda referências a um agente denominado claudecode_deepseek-v4.1-flash, sugerindo uma configuração que poderá combinar um ambiente de execução baseado em Claude Code com um modelo DeepSeek. A identificação exata dos componentes utilizados não foi, contudo, confirmada. Segunda operação tinha como objetivo roubar dados financeirosO segundo grupo, identificado como AIA0002, estava associado a dez painéis de controlo e apresentava uma orientação mais explícita para o roubo de informação financeira. As instruções observadas incluíam referências à obtenção de dados de cartões de crédito, roubo de criptomoedas e transferência de informação para servidores controlados pelos atacantes. Ao contrário do primeiro grupo, que parecia concentrar-se sobretudo na obtenção de acesso persistente, o AIA0002 utilizava o Cairn para diferentes atividades, incluindo operações relacionadas com carteiras de criptomoedas. Os principais alvos incluíam plataformas de pagamentos, serviços comerciais e sites relacionados com produtos farmacêuticos. Foram também identificadas organizações africanas, embora a NorForge não tenha conseguido determinar a localização dos operadores. A investigação encontrou referências a agentes pi_openrouter_deepseek, sugerindo a utilização de modelos DeepSeek através da plataforma OpenRouter e de um ambiente de agentes de programação. O terceiro grupo, AIA0003, estava associado a um único painel com 59 projetos. Os investigadores observaram tentativas de acesso a plataformas de comércio eletrónico e grandes organizações norte-americanas, mas atribuíram um grau de confiança reduzido à classificação da atividade como maliciosa. Taxa de sucesso estimada em 10%A análise da NorForge aponta para uma taxa média de sucesso próxima de 10% nas operações observadas, embora os investigadores ressalvem que os resultados variam significativamente entre grupos e objetivos. Algumas tarefas terminavam após a identificação de uma vulnerabilidade, enquanto outras exigiam a obtenção efetiva de acesso aos sistemas. Por esse motivo, as taxas de sucesso não são diretamente comparáveis entre campanhas. No grupo AIA0001, os projetos que alcançaram os objetivos definidos demoraram, em média, pouco menos de 23 horas desde o início da operação. Durante esse período, os agentes registaram uma média de 140 informações ou descobertas por projeto. Algumas operações prolongaram-se durante vários dias, demonstrando a capacidade dos sistemas para executar processos de exploração relativamente longos. A NorForge estimou ainda que o custo médio de uma tarefa poderá rondar os cinco dólares, considerando também projetos interrompidos ou sem sucesso. Operações mais complexas, com centenas de ações, poderão ultrapassar os 100 dólares. Estas estimativas apresentam um grau considerável de incerteza, uma vez que os investigadores não tiveram acesso aos dados reais de consumo de tokens dos modelos utilizados. Ainda assim, os resultados sugerem que a utilização de agentes de IA pode reduzir os recursos necessários para executar campanhas de exploração em grande escala. Painéis desprotegidos expõem credenciais e operações dos atacantesUm dos aspetos mais relevantes da investigação está relacionado com a falta de proteção dos próprios sistemas utilizados pelos atacantes. A NorForge identificou múltiplos painéis Cairn acessíveis através da Internet, sem mecanismos aparentes de autenticação. A exposição permitia consultar projetos, objetivos, resultados de exploração e informações recolhidas durante as operações. Os investigadores utilizaram a ferramenta TruffleHog para analisar os dados disponíveis e identificaram centenas de credenciais e outros segredos, incluindo chaves de API. Cerca de 11% dos segredos identificados foram validados como ativos pela ferramenta, o que representa um risco adicional para as organizações cujos dados estavam presentes nos painéis. A exposição não se limitava a operações criminosas. A NorForge encontrou também painéis aparentemente associados a testes de intrusão legítimos, que disponibilizavam informações sobre clientes e resultados de avaliações de segurança. Segundo os investigadores, algumas interfaces pareciam expor funcionalidades administrativas que permitiriam iniciar, interromper ou alterar projetos, bem como introduzir novas instruções para os agentes. A equipa não tentou confirmar se estas funcionalidades poderiam ser utilizadas sem autorização, pelo que o risco de terceiros assumirem o controlo das operações permanece uma possibilidade, e não um cenário demonstrado. A investigação evidencia, assim, um problema adicional: além de comprometerem as organizações visadas, os operadores podem expor involuntariamente informações recolhidas durante os ataques, criando novas oportunidades de exploração por terceiros. Investigadores confirmaram comprometimentos e estão a notificar vítimasA NorForge documentou vários casos de exploração bem-sucedida, incluindo ataques contra plataformas de comércio eletrónico nos Estados Unidos, Japão e Austrália. Num dos incidentes, os investigadores confirmaram a presença de uma Webshell num servidor de uma empresa de componentes de hardware. A análise indicava que o comprometimento poderia ter resultado de uma combinação de acesso não autorizado a sessões armazenadas em Memcached, desserialização insegura de objetos PHP e componentes vulneráveis de versões antigas do Zend Framework. Foram também documentadas cadeias de ataque contra sistemas de ponto de venda de restaurantes e grandes plataformas de retalho. Em alguns casos, os investigadores conseguiram confirmar elementos técnicos das intrusões descritas pelos agentes. A NorForge está a colaborar com a Reuters na notificação das organizações afetadas, particularmente nos casos em que existem indícios de comprometimento efetivo. A equipa está igualmente a tentar obter a remoção dos painéis expostos, embora reconheça que o resultado depende da colaboração dos fornecedores de alojamento. Por razões de segurança, os investigadores optaram por não divulgar os endereços completos das interfaces que permanecem acessíveis e contêm informações sensíveis. O relatório demonstra que os agentes autónomos de IA já estão a ser utilizados em operações criminosas que vão além da simples automatização de tarefas de reconhecimento. Ao mesmo tempo, a exposição dos painéis revela que os próprios atacantes enfrentam dificuldades em proteger as infraestruturas utilizadas. Para as equipas de cibersegurança, os resultados reforçam a importância de detetar cadeias de exploração automatizadas, monitorizar tentativas de acesso persistente e garantir que as ferramentas de testes de intrusão não expõem informações sensíveis das organizações avaliadas. |