Opinion

A joia que ninguém protegeu: A Cibersegurança no assalto ao Louvre

Passou cerca de um mês desde o audacioso assalto ao Museu do Louvre em Paris. Este incidente permitiu um dos maiores roubos de arte da história recente. Contudo, os relatórios e investigações agora divulgados revelam que as lições mais relevantes não se limitam ao domínio da segurança física, mas servem como uma poderosa metáfora para a cibersegurança

Por Vera Oliveira, Senior Information Security Consultant na Devoteam Cyber Trust . 20/11/2025

A joia que ninguém protegeu: A Cibersegurança no assalto ao Louvre

O incidente resultou não apenas de vulnerabilidades físicas, mas também de erros básicos em sistemas digitais críticos.

1. Segurança começa pelo básico

O caso Louvre evidencia uma verdade desconfortável. As falhas mais devastadoras são, frequentemente, as mais simples. Entre as vulnerabilidades identificadas estavam a utilização de passwords fracas, incluindo a palavra-passe trivial "LOUVRE". Adicionalmente, sistemas de vigilância críticos estavam a operar em versões antigas do Windows e havia câmaras sem cobertura em várias áreas do museu.

A conclusão é que, no Louvre, a tecnologia existia. Faltava a cultura. No mundo digital, o paralelismo é direto. A importância de políticas de palavras-passe robustas, autenticação multifator e gestão de acessos continua a ser ignorada em muitas organizações, embora sejam elementos essenciais. 

2. O custo do amanhã

A falta de ação face aos riscos implicou um custo direto. A modernização da infraestrutura de segurança do museu estava planeada apenas para 2032. Durante anos, este investimento foi sendo adiado em favor de prioridades mais "visíveis", como as exposições, as obras e os eventos.

Em cibersegurança, adiar medidas de segurança é o mesmo que acumular dívida técnica e risco operacional. É uma dívida que, mais cedo ou mais tarde, se cobra com incidentes. Quando a prevenção é vista como opcional, o incidente torna-se inevitável.

3. A fusão digital e física

O assalto foi possível devido a falhas tecnológicas e operacionais que acabaram por se alinhar. Isto incluiu sistemas interligados, redes desatualizadas e ausência de segmentação.

Hoje a fronteira entre o digital e o físico esbateu-se. A segurança física e a cibersegurança são agora duas faces da mesma moeda. Um ataque informático pode abrir portas físicas e uma falha física pode expor sistemas digitais. As equipas de segurança devem, por isso, atuar em conjunto, com uma visão integrada de risco.

4. Detetar cedo, reagir rápido

Apesar de os alarmes terem sido ativados, a reação foi demasiado lenta. O roubo completo durou apenas alguns minutos. E, quando a reação é lenta, minutos bastam para um desastre.

Em cibersegurança, o tempo entre a intrusão e a deteção deve ser reduzido ao mínimo. A monitorização contínua, a correlação de eventos e os planos de resposta a incidentes bem testados fazem toda a diferença entre conseguir conter a ameaça ou apenas lamentá-la.

5. Cultura e modelo de governo

As auditorias internas concluíram que o maior problema do Louvre não era técnico, mas sim cultural. A organização demonstrava uma subestimação crónica do risco, apesar dos alertas e recomendações de segurança. Faltava prioridade.

Em qualquer organização, a segurança só é eficaz quando é tratada como uma responsabilidade estratégica, com o apoio da gestão de topo e a sua integração em todas as decisões operacionais. Sem cultura de segurança, nenhuma tecnologia é suficiente.

As principais lições

O Caso Louvre é um lembrete de que a segurança é um processo contínuo, não um projeto isolado. Este episódio reforça a importância das seguintes ações para qualquer organização no âmbito da cibersegurança:

  • Manter um inventário atualizado de sistemas e respetivas versões;
  • Substituir ou isolar os sistemas legacy e sem suporte;
  • Garantir orçamento e métricas dedicadas à segurança;
  • Testar respostas aos incidentes digitais e físicos;
  • Sensibilizar regularmente colaboradores.

O assalto ao Louvre é mais do que um episódio policial. É um caso de estudo sobre a vulnerabilidade das organizações modernas. Quando a tecnologia, os processos e a cultura não caminham juntos, o risco deixa de ser teórico e torna-se inevitável. A lição é clara, tanto para museus como para empresas. A segurança não é algo que se instala, é algo que se pratica. Todos os dias.


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