Opinion
Uma campanha recente mostra como um aviso de erro banal pode ser o primeiro passo de um ataque que rouba dados diretamente do computador e do browser
Por Fábio Ribeiro, Sales Engineer da WatchGuard em Portugal . 21/08/2026
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Imagine que abre um documento e aparece uma mensagem a dizer que não foi possível abri-lo. É um erro que todos já vimos: fecha-se a janela, tenta-se de novo mais tarde e esquece-se o assunto. Foi exatamente essa reação que uma campanha recente de ataques informáticos, dirigida a utilizadores de língua portuguesa, decidiu explorar. Tudo começa com um ficheiro enviado à vítima. Ao ser aberto, surge uma mensagem de erro em português, a indicar que o documento não abriu corretamente. Parece inofensivo. Mas enquanto o utilizador vê este aviso e provavelmente ignora o incidente, o computador está, sem que ele perceba, a instalar de forma silenciosa um conjunto de ferramentas maliciosas. Uma das particularidades desta campanha é a forma sofisticada como os atacantes escondem e atualizam a sua infraestrutura, recorrendo a tecnologias normalmente associadas a criptomoedas para dificultar a deteção. Para se infiltrarem ainda mais fundo no sistema, aproveitam também programas legítimos e de confiança já instalados no computador, escondendo o código malicioso lá dentro – uma técnica que dificulta o trabalho dos antivírus. O verdadeiro alvo: o browserA fase mais preocupante do ataque acontece no navegador de internet. Os investigadores identificaram uma extensão maliciosa, compatível com Chrome, Edge e outros browsers semelhantes, que se apresenta como uma ferramenta relacionada com vídeo ou otimização do sistema – um nome inofensivo, escolhido propositadamente para não levantar suspeitas. Depois de instalada, essa extensão passa a comunicar com os atacantes e pode: ver que páginas o utilizador visita e o seu histórico de navegação; aceder a dados guardados no browser, como sessões e cookies; copiar o conteúdo das páginas visitadas e captar imagens do que está no ecrã; e, em certos casos, registar o que é escrito em formulários, incluindo potencialmente palavras-passe ou outros dados pessoais. Ou seja: um simples aviso de erro pode abrir a porta a que alguém, à distância, veja praticamente tudo o que se faz online. Não há, para já, números sobre quantas pessoas em Portugal foram afetadas por esta campanha. Mas o facto de ter sido concebida especificamente com mensagens em português torna-a particularmente relevante para o público português: a familiaridade do idioma é precisamente o que a torna mais convincente. O caso é também um lembrete de como um gesto simples do dia a dia, como abrir um ficheiro, ver um erro, fechar a janela, pode desencadear, sem que nos apercebamos, uma sequência de ações que compromete a nossa privacidade. Os dados provam que o risco está longe de ser teórico. A investigação da WatchGuard revela que 75% dos colaboradores foram vítimas de um incidente de cibersegurança no último ano, o que destaca como o comportamento quotidiano dos utilizadores pode contribuir para a exposição de uma organização. Como se protegerA recomendação central é simples: desconfiar de ficheiros inesperados, sobretudo os que chegam por email ou mensagem de fontes pouco conhecidas, e de mensagens de erro associadas a documentos de origem duvidosa. Convém também rever, de vez em quando, que extensões estão instaladas no browser e remover as que não foram instaladas de forma consciente. Esta campanha é um exemplo de uma tendência mais ampla: os ataques informáticos estão cada vez mais a combinar ferramentas legítimas e do dia a dia – desde programas de confiança até tecnologias como as criptomoedas – para se tornarem mais difíceis de detetar. A ideia a reter é esta: nem sempre um erro é apenas um erro. Por vezes, é o início de um problema muito maior. |