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Em junho deste ano, milhões de utilizadores fora dos Estados Unidos perderam o acesso aos modelos mais avançados da Anthropic.
Por David Grave, Cyber Security Director, Claranet Portugal . 20/07/2026
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O Claude Fable 5 e o Mythos 5 foram desligados, não por uma falha técnica nem por um ataque, mas por uma diretiva do governo norte-americano que proibiu o acesso a qualquer cidadão estrangeiro, invocando razões de segurança nacional. A empresa cumpriu em poucas horas: classificou a situação como um mal-entendido e prometeu repor o serviço. Bastou uma decisão tomada em Washington para que capacidades críticas deixassem de estar disponíveis em Lisboa. Já conhecemos esta história. Ela chama-se energia. A Europa passou a última década a aprender, da pior maneira, o que custa depender de infraestrutura que outro controla. Quando a Rússia transformou o gás numa arma e o trânsito pela Ucrânia parou, a 1 de janeiro de 2025, países inteiros descobriram que a sua segurança energética estava, afinal, nas mãos de quem tinha a mão na válvula. E há décadas que os mercados prendem a respiração sempre que sobe a tensão no Estreito de Ormuz, o gargalo por onde passa cerca de um quinto do petróleo mundial e para o qual, caso feche, quase não há alternativa. O evento de junho é o mesmo enredo, agora no plano digital. Alguém carregou no interruptor, do outro lado do Atlântico. Durante anos repetimos que a Cloud apagava fronteiras, que a IA era global, que bastava escolher o melhor modelo e consumi-lo por API. O caso da Anthropic mostra que isso nunca foi verdade. Hoje é a Anthropic. Amanhã pode ser qualquer fornecedor sujeito a interesses estratégicos nacionais que não são os nossos. A Europa fala muito de soberania digital e, ao mesmo tempo, entrega os seus dados, os seus processos e, em muitos casos, a sua capacidade de decisão a infraestruturas que não controla. Isto não se chama transformação digital. Chama-se externalização de soberania. Há uma ironia neste caso que não devíamos deixar passar. A razão invocada para desligar o Mythos foi precisamente a competência deste modelo para encontrar vulnerabilidades de software, algumas por descobrir há décadas. Falamos da mesma classe de capacidade que está a comprimir para quase zero o intervalo entre a publicação de um CVE (Common Vulnerabilities and Exposures) e a sua exploração ativa. Quem trabalha em defesa sabe o que significa na operação: os processos de patching e de gestão de vulnerabilidades da maioria das organizações foram desenhados para um mundo mais lento, que já não existe. A Europa fica, assim, duplamente exposta: depende de capacidades que são essenciais para se defender e, ao mesmo tempo, passíveis de serem desligadas a partir de fora. Perante este cenário, a pergunta que CIOs, CISOs e administrações devem fazer já não é qual é o melhor modelo. É outra: o que acontece ao meu negócio se amanhã deixar de ter acesso a este modelo? Se a resposta for “paramos”, então não existe uma estratégia de IA. Existe apenas uma aposta. A Inteligência Artificial está a tornar-se infraestrutura estratégica ao nível da energia, das telecomunicações ou da defesa. E ninguém desenha a defesa de um país assumindo que outra potência estará sempre disponível para ajudar. Não vejo por que razão haveríamos de o fazer com a IA. O desafio não termina com uma resolução do Conselho de Ministros. O Plano Nacional de Nuvem Soberana, aprovado este ano, vai no caminho certo ao exigir isolamento e jurisdição nacional para o que é crítico. Mas soberania não se decreta, constrói-se. Em IA, isso significa investir em modelos open source executados localmente, infraestrutura On-Premises para os workloads críticos, arquiteturas híbridas, fornecedores europeus sempre que possível e uma estratégia multi-modelo que iniba o lock-in. Nenhuma destas opções é tão cómoda como ligar uma API. Mas todas respondem à única pergunta que importa quando o acesso é cortado. Dirão que isto é protecionismo tecnológico. Que os modelos europeus estão anos atrás e que renunciar à fronteira da IA é condenarmo-nos ao atraso. Têm, em parte, razão, e seria desonesto fingir o contrário: os melhores modelos estão hoje do outro lado do Atlântico e não os vamos replicar à escala de quem os criou. Mas soberania nunca foi recusar a melhor tecnologia. É antes sinónimo de não construir todo o negócio sob um interruptor que está nas mãos de outros. Quem tem alternativas e uma estratégia multi-modelo não fica sem nada quando a ordem chega de Washington. Quem externalizou tudo, fica. A operação contrata-se sempre. A dependência escolhe-se. A Europa reconstruiu boa parte da sua estratégia energética depois de aprender, com faturas pesadas, que a dependência se paga sempre no pior momento. Com a Inteligência Artificial temos a rara vantagem de ver o aviso antes da crise. O acesso ao Fable e ao Mythos, à data em que escrevo, continua a ser tratado como um mal-entendido. Mas a lição não muda: o interruptor não é nosso. Podemos continuar a tratar isto como um incidente passageiro, ou fazer, finalmente, a pergunta que temos adiado demasiadas vezes. O que fazemos no dia em que, do outro lado, ninguém tiver interesse em voltar a ligá-lo?
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