Analysis

Infraestruturas de IA expostas à Internet aumentam 63% em nove meses

Relatório da Censys identifica quase 268 mil sistemas de IA acessíveis através da Internet e 134 mil sistemas de controlo industrial expostos. A visibilidade sobre estas infraestruturas continua a ser um desafio para a cibersegurança

15/10/2026

Infraestruturas de IA expostas à Internet aumentam 63% em nove meses
Abubakar / AdobeStock

O número de sistemas de Inteligência Artificial (IA) acessíveis através da Internet aumentou 63% em nove meses, atingindo quase 268 mil equipamentos e serviços, segundo o relatório “2026 State of the Internet”, da Censys. O crescimento acompanha a rápida adoção de ferramentas de IA, mas também levanta preocupações sobre a exposição de infraestruturas que podem estabelecer ligações a dados, aplicações empresariais e contas de utilizadores.

A quinta edição do estudo anual da Censys identifica ainda cerca de 134 mil sistemas de controlo industrial (ICS) expostos à Internet, dos quais aproximadamente 70% estão associados a redes de consumo e redes móveis. Esta distribuição dificulta a identificação dos responsáveis pelos sistemas e a implementação de medidas para reduzir a sua exposição.

O relatório baseia-se na análise de dados históricos e em tempo real recolhidos através do Censys Internet Map, uma plataforma que monitoriza continuamente a infraestrutura global acessível através da Internet.

O crescimento da infraestrutura de IA não se limita a aplicações de conversação. Segundo a Censys, uma parte significativa dos sistemas identificados corresponde a ferramentas que permitem integrar modelos de IA com fontes de dados, aplicações e contas de utilizadores, incluindo plataformas de automação e agentes autónomos.

A plataforma de automação de processos n8n é o produto mais frequentemente identificado, com cerca de 114 mil sistemas expostos. Segue-se o OpenClaw, um assistente pessoal baseado em agentes de IA, com aproximadamente 54 mil sistemas acessíveis através da Internet.

Estas tecnologias permitem automatizar tarefas e estabelecer ligações entre diferentes serviços, mas a sua exposição pode criar riscos adicionais quando existem configurações inadequadas, mecanismos de autenticação insuficientes ou vulnerabilidades por corrigir. A presença de um sistema na Internet não significa, por si só, que esteja vulnerável ou comprometido, mas aumenta a importância de controlar os acessos e monitorizar a sua superfície de ataque.

Geograficamente, os Estados Unidos concentram o maior número de sistemas de IA expostos, com 62.687, seguidos da China, com 42.511, e da Alemanha, com 31.222. Em conjunto, os três países representam pouco mais de metade da infraestrutura de IA identificada pela Censys.

A exposição de sistemas de controlo industrial permanece como uma das preocupações identificadas no relatório. A Censys detetou aproximadamente 134 mil sistemas ICS acessíveis através da Internet, incluindo dispositivos e serviços associados a ambientes de tecnologias operacionais.

A América do Norte concentra cerca de 38% destes sistemas, seguida da Europa, com 32%, e da Ásia, com 25%. A distribuição mostra que a exposição de infraestruturas industriais não está limitada a uma região e continua a representar um desafio para a proteção de ambientes operacionais.

Um dos resultados mais relevantes é a presença de aproximadamente 70% dos sistemas ICS expostos em redes de consumo e redes móveis. Segundo a Censys, esta característica dificulta a identificação das organizações responsáveis pelos equipamentos, tornando mais complexa a comunicação de riscos e a adoção de medidas corretivas.

A exposição de sistemas industriais exige particular atenção devido à sua possível ligação a processos físicos e operações críticas. Embora o relatório não indique que os 134 mil sistemas identificados estejam vulneráveis ou tenham sido comprometidos, a acessibilidade através da Internet pode aumentar a superfície disponível para reconhecimento e potenciais ataques.

A análise da Censys identifica diferenças geográficas na distribuição da infraestrutura utilizada em atividades maliciosas. A China concentra 36,6% dos sistemas identificados como infraestrutura maliciosa ao nível dos hosts, incluindo servidores de comando e controlo (C2) e ferramentas de acesso remoto. Os Estados Unidos representam 16,8% desta categoria.

A distribuição inverte-se quando são consideradas ameaças baseadas na Web, como páginas de phishing e outros conteúdos fraudulentos. Neste segmento, os Estados Unidos concentram 45,5% da infraestrutura observada, enquanto a China representa 20,9%.

Estes resultados mostram que diferentes regiões assumem papéis distintos no alojamento de serviços associados a atividades maliciosas. Contudo, a localização da infraestrutura não permite determinar a origem dos atacantes ou atribuir responsabilidade a organizações ou entidades de um determinado país.

Os dados reforçam a importância de analisar o contexto técnico e operacional das ameaças, em vez de depender exclusivamente da localização geográfica dos sistemas identificados.

O relatório analisou também a evolução das versões de quatro produtos empresariais: Progress Telerik Report Server, Jenkins, Cleo MFT e Microsoft SharePoint Server. Em todos os casos, a Censys observou a adoção de versões mais recentes, o que indica que parte das organizações está a atualizar os sistemas.

No entanto, as versões mais antigas permaneceram praticamente inalteradas durante o período analisado. Esta persistência sugere que determinados sistemas continuam fora dos ciclos regulares de atualização, mesmo quando outros equipamentos da mesma categoria evoluem para versões mais recentes.

A manutenção de software desatualizado pode aumentar a exposição a vulnerabilidades conhecidas, sobretudo quando os sistemas permanecem acessíveis através da Internet. O relatório não quantifica, contudo, quantas das instalações identificadas apresentam falhas exploráveis.

Para as equipas de cibersegurança, os resultados evidenciam a necessidade de identificar ativos que possam estar fora dos processos habituais de gestão de atualizações, incluindo sistemas antigos ou cuja responsabilidade operacional não esteja claramente definida.

Para a Censys, o crescimento da infraestrutura de IA e a persistência de sistemas industriais expostos demonstram que a superfície de ataque das organizações está em constante transformação. A introdução de novas aplicações e serviços pode criar pontos de exposição que não são imediatamente identificados pelas equipas responsáveis pela Segurança.

“A Internet está em constante mudança, e compreender como evolui é fundamental para a cibersegurança moderna”, afirma Zakir Durumeric, cofundador e CEO da Censys, em comunicado. O responsável considera que a identificação e monitorização contínua dos sistemas acessíveis através da Internet são essenciais para aproveitar as capacidades da IA sem introduzir riscos não geridos.

O estudo aponta para a importância de manter um inventário atualizado dos ativos expostos, avaliar as configurações de acesso e acompanhar a evolução das tecnologias implementadas. Estas medidas assumem particular relevância em organizações que utilizam agentes de IA, ferramentas de automação e sistemas industriais ligados a redes externas.

Os resultados do “2026 State of the Internet” mostram que a expansão das infraestruturas digitais está a aumentar a complexidade da gestão da superfície de ataque. A exposição à Internet não equivale necessariamente a uma Vulnerabilidade, mas a falta de visibilidade sobre os sistemas acessíveis pode dificultar a identificação e correção de riscos antes de serem explorados.


NOTÍCIAS RELACIONADAS

RECOMENDADO PELOS LEITORES

REVISTA DIGITAL

IT SECURITY Nº32 OUTUBRO 2026

IT SECURITY Nº32 OUTUBRO 2026

NEWSLETTER

Receba todas as novidades na sua caixa de correio!

O nosso website usa cookies para garantir uma melhor experiência de utilização.