Analysis
Relatório da Censys identifica quase 268 mil sistemas de IA acessíveis através da Internet e 134 mil sistemas de controlo industrial expostos. A visibilidade sobre estas infraestruturas continua a ser um desafio para a cibersegurança
15/10/2026
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O número de sistemas de Inteligência Artificial (IA) acessíveis através da Internet aumentou 63% em nove meses, atingindo quase 268 mil equipamentos e serviços, segundo o relatório “2026 State of the Internet”, da Censys. O crescimento acompanha a rápida adoção de ferramentas de IA, mas também levanta preocupações sobre a exposição de infraestruturas que podem estabelecer ligações a dados, aplicações empresariais e contas de utilizadores. A quinta edição do estudo anual da Censys identifica ainda cerca de 134 mil sistemas de controlo industrial (ICS) expostos à Internet, dos quais aproximadamente 70% estão associados a redes de consumo e redes móveis. Esta distribuição dificulta a identificação dos responsáveis pelos sistemas e a implementação de medidas para reduzir a sua exposição. O relatório baseia-se na análise de dados históricos e em tempo real recolhidos através do Censys Internet Map, uma plataforma que monitoriza continuamente a infraestrutura global acessível através da Internet. O crescimento da infraestrutura de IA não se limita a aplicações de conversação. Segundo a Censys, uma parte significativa dos sistemas identificados corresponde a ferramentas que permitem integrar modelos de IA com fontes de dados, aplicações e contas de utilizadores, incluindo plataformas de automação e agentes autónomos. A plataforma de automação de processos n8n é o produto mais frequentemente identificado, com cerca de 114 mil sistemas expostos. Segue-se o OpenClaw, um assistente pessoal baseado em agentes de IA, com aproximadamente 54 mil sistemas acessíveis através da Internet. Estas tecnologias permitem automatizar tarefas e estabelecer ligações entre diferentes serviços, mas a sua exposição pode criar riscos adicionais quando existem configurações inadequadas, mecanismos de autenticação insuficientes ou vulnerabilidades por corrigir. A presença de um sistema na Internet não significa, por si só, que esteja vulnerável ou comprometido, mas aumenta a importância de controlar os acessos e monitorizar a sua superfície de ataque. Geograficamente, os Estados Unidos concentram o maior número de sistemas de IA expostos, com 62.687, seguidos da China, com 42.511, e da Alemanha, com 31.222. Em conjunto, os três países representam pouco mais de metade da infraestrutura de IA identificada pela Censys. A exposição de sistemas de controlo industrial permanece como uma das preocupações identificadas no relatório. A Censys detetou aproximadamente 134 mil sistemas ICS acessíveis através da Internet, incluindo dispositivos e serviços associados a ambientes de tecnologias operacionais. A América do Norte concentra cerca de 38% destes sistemas, seguida da Europa, com 32%, e da Ásia, com 25%. A distribuição mostra que a exposição de infraestruturas industriais não está limitada a uma região e continua a representar um desafio para a proteção de ambientes operacionais. Um dos resultados mais relevantes é a presença de aproximadamente 70% dos sistemas ICS expostos em redes de consumo e redes móveis. Segundo a Censys, esta característica dificulta a identificação das organizações responsáveis pelos equipamentos, tornando mais complexa a comunicação de riscos e a adoção de medidas corretivas. A exposição de sistemas industriais exige particular atenção devido à sua possível ligação a processos físicos e operações críticas. Embora o relatório não indique que os 134 mil sistemas identificados estejam vulneráveis ou tenham sido comprometidos, a acessibilidade através da Internet pode aumentar a superfície disponível para reconhecimento e potenciais ataques. A análise da Censys identifica diferenças geográficas na distribuição da infraestrutura utilizada em atividades maliciosas. A China concentra 36,6% dos sistemas identificados como infraestrutura maliciosa ao nível dos hosts, incluindo servidores de comando e controlo (C2) e ferramentas de acesso remoto. Os Estados Unidos representam 16,8% desta categoria. A distribuição inverte-se quando são consideradas ameaças baseadas na Web, como páginas de phishing e outros conteúdos fraudulentos. Neste segmento, os Estados Unidos concentram 45,5% da infraestrutura observada, enquanto a China representa 20,9%. Estes resultados mostram que diferentes regiões assumem papéis distintos no alojamento de serviços associados a atividades maliciosas. Contudo, a localização da infraestrutura não permite determinar a origem dos atacantes ou atribuir responsabilidade a organizações ou entidades de um determinado país. Os dados reforçam a importância de analisar o contexto técnico e operacional das ameaças, em vez de depender exclusivamente da localização geográfica dos sistemas identificados. O relatório analisou também a evolução das versões de quatro produtos empresariais: Progress Telerik Report Server, Jenkins, Cleo MFT e Microsoft SharePoint Server. Em todos os casos, a Censys observou a adoção de versões mais recentes, o que indica que parte das organizações está a atualizar os sistemas. No entanto, as versões mais antigas permaneceram praticamente inalteradas durante o período analisado. Esta persistência sugere que determinados sistemas continuam fora dos ciclos regulares de atualização, mesmo quando outros equipamentos da mesma categoria evoluem para versões mais recentes. A manutenção de software desatualizado pode aumentar a exposição a vulnerabilidades conhecidas, sobretudo quando os sistemas permanecem acessíveis através da Internet. O relatório não quantifica, contudo, quantas das instalações identificadas apresentam falhas exploráveis. Para as equipas de cibersegurança, os resultados evidenciam a necessidade de identificar ativos que possam estar fora dos processos habituais de gestão de atualizações, incluindo sistemas antigos ou cuja responsabilidade operacional não esteja claramente definida. Para a Censys, o crescimento da infraestrutura de IA e a persistência de sistemas industriais expostos demonstram que a superfície de ataque das organizações está em constante transformação. A introdução de novas aplicações e serviços pode criar pontos de exposição que não são imediatamente identificados pelas equipas responsáveis pela Segurança. “A Internet está em constante mudança, e compreender como evolui é fundamental para a cibersegurança moderna”, afirma Zakir Durumeric, cofundador e CEO da Censys, em comunicado. O responsável considera que a identificação e monitorização contínua dos sistemas acessíveis através da Internet são essenciais para aproveitar as capacidades da IA sem introduzir riscos não geridos. O estudo aponta para a importância de manter um inventário atualizado dos ativos expostos, avaliar as configurações de acesso e acompanhar a evolução das tecnologias implementadas. Estas medidas assumem particular relevância em organizações que utilizam agentes de IA, ferramentas de automação e sistemas industriais ligados a redes externas. Os resultados do “2026 State of the Internet” mostram que a expansão das infraestruturas digitais está a aumentar a complexidade da gestão da superfície de ataque. A exposição à Internet não equivale necessariamente a uma Vulnerabilidade, mas a falta de visibilidade sobre os sistemas acessíveis pode dificultar a identificação e correção de riscos antes de serem explorados. |