A cibersegurança deixou de ser um luxo para se tornar a espinha dorsal de qualquer operação de negócio
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Num contexto de transformação digital acelerada, com a proliferação de ambientes cloud e dispositivos de trabalho remoto, o perímetro de defesa das organizações expandiu-se drasticamente. Neste novo cenário, dois vetores de ataque destacam-se como determinantes para a resiliência corporativa. Vetores de Ataque: Identidade e VulnerabilidadesO primeiro vetor, frequentemente o mais explorado, é a Identidade. O comprometimento de credenciais válidas — seja por phishing, malware, infostealers ou falhas de configuração em sistemas de gestão de acessos permite que atacantes operem dentro da rede com privilégios legítimos, tornando-se quase invisíveis. O segundo vetor, central na segurança operacional, é a Gestão de Vulnerabilidades. É amplamente reconhecido que vulnerabilidades de software (incluindo falhas de configuração e patches em falta) são o segundo vetor de ataque mais prevalente e crítico, logo após as identidades, sendo a principal porta de entrada para ataques de ransomware e violações de dados, conforme consistentemente demonstrado em análises do setor, como o Relatório Anual de Investigação de Violação de Dados (DBIR) da Verizon. Quando estes dois vetores se combinam — identidades fracas em sistemas vulneráveis — o risco aumenta exponencialmente. Uma identidade comprometida num sistema com uma vulnerabilidade RCE (Execução Remota de Código) não só permite o acesso, como facilita a escalada de privilégios e a movimentação lateral na rede de forma extremamente rápida. O Mito do “Zero Vulnerabilidades” e a Realidade OperacionalA realidade obriga o setor da cibersegurança a encarar uma verdade incómoda: a meta de “Zero Vulnerabilidades” é, na maioria das organizações complexas, uma ilusão. O volume de novas vulnerabilidades divulgadas (CVEs) é insustentável, excedendo largamente a capacidade das equipas de IT e Segurança para as corrigir. Esta pressão levou a uma reavaliação necessária, e controversa, das estratégias de patching e gestão de risco. Novo Paradigma: Da Quantidade à Qualidade do RiscoA tendência dominante, cada vez mais adotada por empresas focadas em resiliência, é a transição de uma postura defensiva generalista para uma abordagem cirúrgica e orientada para o risco. Esta nova filosofia defende que a resolução de vulnerabilidades deve priorizar:
O objetivo não é eliminar todas as vulnerabilidades, mas maximizar a redução do risco com otimização dos recursos. Vantagens desta abordagem:
A Abordagem “Zero Tolerance” (Tradicional)Em oposição à priorização seletiva, há uma forte argumentação a favor da tentativa de resolver todas as vulnerabilidades, abordagem “Zero Tolerance”. Apesar dos desafios operacionais e da pressão para otimizar recursos, esta postura tradicional oferece benefícios importantes, especialmente sob a ótica da Governança e Cultura (NIS2):
Conclusão: O Caminho para a ResiliênciaO debate e a escolha entre a abordagem “Risk Driven” e “Zero Tolerance” não tem resposta única. Com a entrada em vigor da NIS2, que responsabiliza a gestão de topo pela gestão de todos os riscos, há uma tendência para privilegiar a abordagem mais conservadora. O ideal é combinar o melhor dos dois mundos:
Só através de uma cultura onde nenhuma vulnerabilidade é aceite como permanente e onde a automação é o principal motor de patching, as organizações conseguirão enfrentar a crescente ameaça da combinação de identidades e vulnerabilidades. A segurança é uma maratona: a consistência na eliminação de falhas é a chave para a resiliência a longo prazo. |
João Rosário
Head of IT Security and Operations
Sonae MC
Profissional com mais de 15 anos de experiência em Cibersegurança e IT Operations, com um percurso consolidado em grandes organizações portuguesas. Atualmente, desempenha as funções de Head of IT Security and Operations na Sonae MC, uma posição que ocupa há cerca de 3 anos. A sua experiência no grupo Sonae começou anteriormente na Zeitreel (Sonae Fashion), onde foi Manager durante 5 anos, acumulando responsabilidades nas áreas de IT Security, Operations, Networking e Infraestrutura. Antes de ingressar no grupo Sonae, João Pedro foi IT Services Manager na José de Mello Saúde (CUF) durante 6 anos, estabelecendo aí a sua ligação mais direta com a área de cibersegurança. Iniciou a sua carreira profissional na Vodafone Portugal, onde construiu toda a sua base técnica, sempre focado em IT Operations.
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