Da guerra cognitiva

Da guerra cognitiva

Desde os primórdios da humanidade que a guerra tem sido um instrumento de poder na resolução das disputas que emergem do antagonismo e da confrontação das vontades

A história revela o valor da informação no domínio da estratégia e da tomada de decisão, sendo inevitável referir que a sua utilização permitiu aos seres humanos agruparem-se, cooperarem, sobreviverem e prosperarem. Potenciou, contudo, dinâmicas de polarização em que a contestação no ambiente informacional se transformou agónica, manifestando- se no espectro competitivo e conflitual.

Hoje, a informação é usada como munição e a mente como campo de batalha. Todas as facetas da existência humana são mensuráveis e alvejáveis pelo que, no dealbar de artefactos cognitivos e tecnológicos, multiplicadores de capacidade, assiste-se à exploração dos preconceitos e erros cognitivos, à manipulação das perceções, à indução de tensões, ao domínio e direcionamento da atenção.

A Guerra Cognitiva representa uma abordagem estratégica do conflito que procura influenciar e controlar o processo de pensamento, a tomada de decisões político-militares e os comportamentos das populações visadas. É parte integrante de uma estratégia na “zona cinzenta”, que visa atingir objetivos de uma forma negável. Inclui atividades conduzidas em sincronização com outros instrumentos de poder, para afetar atitudes e comportamentos, influenciando, protegendo ou perturbando a cognição a nível individual, grupal ou de uma população, no intuito de obter uma vantagem sobre um adversário. Enquanto conceito, articula a essência da Guerra, nomeadamente a intenção de modificar a disposição, a atitude, a vontade e o ímpeto adversário, em que a utilização de desinformação (por exemplo) tem como objetivo influenciar diretamente a cognição humana sem infligir previamente força física ou coerção.

Não é, contudo, novidade absoluta. Operações de informação e contrainformação preenchem os anais da história e a conflitualidade que derivou das incompatibilidades, das disputas, da oposição e da competição, considerou informação em seu apoio ou desfavor. A diferença substantiva para os dias de hoje é de que o poder da informação aumentou exponencialmente e há formas emergentes de cognição capturadas por vontades adversárias que as utilizam no encalce do seu intento estratégico. A disputa narrativa é acompanhada pela propaganda computacional, potenciada pela Inteligência Artificial, empregando a persuasão assistida por computador (captologia) e a persuasão interpessoal massiva. Sustenta-se no profuso aparato tecnológico para alterar os processos cognitivos, explorar preconceitos mentais ou pensamento reflexivo, provocar distorções de pensamento, influenciar a tomada de decisão e perturbar a ação, tanto individual como coletiva. Atende à imperfeição, à vulnerabilidade e fragilidade que caracteriza a natureza humana, cerceando a sua liberdade cognitiva, induzindo um estado comportamental que inibe, atemoriza, desperta a incerteza e a aversão ao risco. Como oportunamente referiu Clausewitz, “o medo é uma base muito estável para uma relação”.

Influenciar o domínio cognitivo, afetando as perceções, atitudes e motivações, está na base da maioria, se não de todos, os objetivos. A sua prossecução visa desarticular a estrutura do poder adversário, alinhando as modalidades de ação, a escolha do ponto decisivo e a concentração de esforços, no encalce de um objetivo estratégico. Pois, é no âmbito do significado que a capacidade de persuasão, munida de novos conhecimentos, se desenvolve sobre as vulnerabilidades humanas, utilizando a parafernália tecnológica para direcionar a atenção e induzir a dúvida, com controlo persuasivo probabilístico, capaz de toldar o raciocínio e moldar a preceito a opinião.

O fluxo informacional é atualmente tão prevalecente, potente e inevitável que faz parte do ambiente operacional, tal qual o terreno ou o clima. Nesta penumbra psicológica, a emoção sobrepõe-se à convicção intelectual, à perceção clara e completa, e a aparente sensação de verdade prevalece, diluindo-se ao ponto de a falta desta ser um elemento integrado na realidade social. A alegoria da Caverna (Platão, 375 a.C.) alude, de forma sublime, à importância da mensagem em contexto, cerceada pelo jogo de sombras e diluída da realidade. Desprovidos de sentido crítico, de conhecimento, da razão, os indivíduos acorrentam-se a uma induzida e resignada perceção da realidade.

A contestação centra-se agora no encalce de superioridade cognitiva enquanto vetor de poder. A sustentação deste vetor depende do aprimoramento do pensamento, da aprendizagem constante e do acesso superior à informação. Implica ter uma compreensão mais rápida, profunda e alargada do ambiente operacional, do adversário, do próprio, e da capacidade de transformar o conhecimento e a compreensão de uma situação numa vantagem decisória efetiva.

Como objetivo, edificar capacidades defensivas ou ofensivas, aptas a explorar a premissa de Orwell: “o poder consiste em despedaçar as mentes humanas e voltar a juntá-las em novas formas à nossa escolha”.

Fernando Amorim

Fernando Amorim

Presidente do Conselho de Administração
Segur B S.A.

Gestor com mais de 25 anos de experiência no setor financeiro, nas áreas de Estratégia, Liderança e Gestão do Risco. É Presidente do Conselho de Administração Segur B S.A., Auditor da Defesa Nacional e Membro da Direção da CIIWA - Núcleo Norte.

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