O ciberespaço, a segurança e a corrida pelo ciber talento

O ciberespaço, a segurança e a corrida pelo ciber talento

O antagonismo de interesses e a confrontação de vontades marcaram, desde sempre, a história da humanidade

As relações e o exercício do poder perpassam o ciberespaço, configurando- -o como ambiente estratégico conflitual em que se disputa a hegemonia. As nações, na senda incessante de melhoria da sua posição competitiva, de superioridade no domínio da informação, ou presença tendencialmente dominante no ciberespaço, debatem-se com a complexa tarefa de desenvolverem sociedades simultaneamente ciber eficientes e ciber resilientes. Pretende-se a construção de um ciberespaço, livre, inclusivo, próspero, em que a provisão de segurança e defesa se desenvolva e capacite à velocidade alucinante da evolução de um espectro alargado de ações mal-intencionadas e hostis O risco social, intimamente ligado à atividade humana, marca indelevelmente o ciberespaço. Como que geneticamente modificado, os incidentes abandonam o caráter súbito, fortuito ou imprevisto, para tomar forma como ameaça.

De uma forma muito distintiva, o ciberespaço agrega atributos que potenciam condições ímpares à proliferação da sua utilização, nomeadamente, não apresenta restrições geográficas ou temporais, não tem barreiras à entrada e o custo de acesso é baixo. Tem um espetro de impacto muito alargado e facilmente escalável, o anonimato torna a rastreabilidade muito difícil. Talvez por isso, é também um ambiente conflitual em que operações de espionagem, guerra psicológica, sabotagem, danos à informação e aos equipamentos, resultam na confrontação de partes beligerantes. O ciberespaço é profícuo em alvos e a dependência dos sistemas de informação das infraestruturas críticas, relativamente ao funcionamento em rede, eleva sobremaneira o nível de ameaça.

A interdependência complexa do mundo contemporâneo, que resulta do processo estendido de globalização e que hoje se alicerça em redes globais, criou espaço para a projeção de poder, em que o ciberespaço tem sido usado como instrumento catalisador. Esta relação de dependência desencadeou a fragmentação de poder nos vários atores, bem como potenciou vulnerabilidades recíprocas. Com todas as vantagens e desvantagens que decorrem da sua natureza global, o ciberespaço é hoje reconhecido como o quinto domínio do conflito, acrescendo aos domínios terrestre, marítimo, aéreo e espacial.

Nesse sentido, o desenvolvimento de capacidades (ofensivas e defensivas) tem levado os Estados à concentração de esforços e à alocação de recursos, na expectativa de conquista de uma posição dianteira. Os ciberataques podem constituir atos de guerra e, desse modo, a possibilidade de uma ciberguerra assumir materialidade. A tecnologia tem a particularidade de, com uso de “pouca força”, provocar significativa violência, levando alguns autores a definir a ciberguerra como “a expressão do conflito armado na dimensão do ciberespaço”.

O conceito estratégico da NATO (2022) reforça a complexidade do ambiente estratégico em que a confrontação no ciberespaço é permanente. A intenção adversária procura degradar as infraestruturas críticas, perturbar a governação, apropriar informação e condicionar atividades militares. O advento de tecnologias emergentes e disruptivas, aporta riscos que podem condicionar o acesso, a liberdade de ação e desestabilizar o tabuleiro competitivo global. Inelutavelmente, a dianteira tecnológica influenciará de forma decisiva a vantagem no campo de batalha. São referidos como objetivos o reforço da capacidade de dissuasão e defesa contra qualquer ameaça, prevenção e gestão de crises e da segurança cooperativa.

Os Estados não têm o monopólio do ciberespaço, a contrario sensu dos domínios do conflito mais tradicionais – terra, mar, ar – pelo que, sem barreiras à entrada, torna acessível a qualquer indivíduo o recurso à tecnologia, competir à escala global e deter enorme poder.

A gestão do ciberespaço dilui-se em estruturas modernas concebidas para o efeito e no aparato regulatório e administrativo mais conservador. São, deste modo, vários os atores e não apenas os Estados a ocupar um espaço central no governo do ciberespaço, bem como na sua utilização para a guerra ou para paz, tornando a Internet uma arma para a prossecução de qualquer propósito e difusão do poder.

Um ambiente estratégico tão complexo e multidimensional potencia a manifestação de intenções e ações adversas que intersetam os domínios da segurança e da defesa nacional.

Abordá-lo estrategicamente enquanto espaço económico, livre inclusivo e seguro, implica que as organizações, de qualquer natureza, pública ou privada, civil ou militar, saibam coexistir neste ambiente e, desse modo, consigam adequar, capacitar e treinar o seu capital humano.

O conceito de ambiente estratégico, criado pelo ciberespaço carece de uma abordagem distinta daquela que norteou os paradigmas de segurança até ao início do século XXI, consubstanciados, indelevelmente, pela ameaça nuclear e por conflitos convencionais em que as estratégias se centravam na dissuasão e no combate. Como tal, é imperativo o desenvolvimento de novas estratégias, doutrinas, conceitos operacionais, organizações, recursos e autoridades legais, implicando que os Estados se organizem e evoluam na provisão de segurança digital. O domínio ciber é omnipresente e tornou-se fundacional na segurança nacional dos Estados, não só pela dependência e utilização da infraestrutura, mas, primordialmente, pelo poder e influência que esta projeta. A porosidade, e mesmo a inexistência de fronteiras no ciberespaço, adensa a complexidade deste ambiente estratégico.

Neste contexto, a cibersegurança é um pilar estruturante da segurança nacional, determinante no enfrentar da multitude de ameaças, cada vez mais frequentes, complexas e destrutivas que surgem de inúmeros quadrantes. Reconhecidamente, obriga a um contínuo ajustamento ao ambiente estratégico e operacional, que se altera a cada instante, pelo que atingir um estado final desejado, com um elevado nível de ambição, afigura-se um desafio hercúleo.

Preservar a liberdade e paz no ciberespaço são desígnios maiores na segurança nacional, contudo, difíceis de garantir numa atuação singular e isolada do mundo circundante.

O quadro nacional de governação da segurança e defesa no ciberespaço, contempla o grau de articulação de estruturas orgânicas, capacidade de planeamento estratégico conjunto, articulação operacional dos recursos residentes e agilidade para a criação de conhecimento, e incorporação de competências externas. Contudo, não está imune à necessidade de permanente capacitação operacional e à escassez de recursos humanos com qualificações na área da cibersegurança e da ciberdefesa. Acresce a relação assimétrica que se estabelece no mercado de trabalho, em que o setor privado desenvolve propostas de elevado valor, dificilmente igualáveis pelo setor público. Este não é um problema nacional, a rarefação de talento nas áreas da cibersegurança é um problema mundial. São muito raros os documentos estratégicos publicados pelas nações que não identifiquem o talento como vetor estratégico. São inúmeras as iniciativas e programas que colocam como objetivo a atração, gestão e retenção de talento, e o desenvolvimento de parcerias com o setor privado são uma tendência crescente. Enunciando alguns dos atores estatais mais proeminentes, países como os EUA, Rússia, China, Reino Unido, Japão, integram nos seus objetivos estratégicos para o ciberespaço, a edificação de capacidades apoiadas, partilhadas e alinhadas com o setor privado.

Portugal, tem sido um exemplo de coordenação e articulação entre as estruturas que garantem a segurança e a defesa no ciberespaço. No quadro do reforço estrutural da estratégia nacional, um sistema de resposta a edificar poderá evoluir na conciliação de um novo modelo de comando e governo mais ágil, bem como, com o desenvolvimento de uma política de atração, gestão e retenção de talentos.

O planeamento estratégico ou esforço no reforço da eficiência operacional, terá necessariamente de colocar no centro da transformação a problemática do capital humano. A capacidade de execução estratégica exige um dimensionamento e gestão desse mesmo capital, proporcional à responsabilidade e ajustado à promoção de um incremento quantitativo e qualitativo do talento associado. Com efeito, ao nível dos recursos humanos, o desenvolvimento das capacidades residentes e a exploração do capital de conhecimento, torna necessária a adoção de soluções integradas, imaginativas e diferenciadoras, compagináveis com uma visão estratégica construtora da resiliência nacional.

A progressiva orientação sinérgica e cooperativa com o setor privado, na provisão de segurança no ciberespaço, pode ser uma solução. Há países com maior maturidade e experiência que avançaram nesse sentido, como é o caso do Reino Unido que tem das abordagens mais integradas de cibersegurança no mundo. Concebe-a como um exercício de gestão do risco em que, para além das capacidades soberanas existentes, desenvolve parcerias em vários setores, em particular com o setor privado, para colaboração no programa nacional de cibersegurança.

O epíteto da resiliência no ciberespaço e da Segurança Nacional, secundado por uma estrutura de resposta robusta, embebida numa responsabilidade coletiva, pode diferenciar e projetar a capacidade nacional. Na prossecução de um futuro desejado, tentativamente mitigador de riscos e neutralizador de ameaças, advoga- se um vetor de capacitação, centrado no elemento humano. Quem sabe, quebrar ortodoxias e edificar uma capacidade de ciber reserva, capaz de gerar o talento tão necessário.

Fernando Amorim

Fernando Amorim

Presidente da Comissão Executiva
Melior S.A.

Gestor com mais de 25 anos de experiência no setor financeiro, nas áreas de Estratégia, Liderança e Gestão do Risco. É presidente da Comissão Executiva da Melior S.A., Auditor do Curso de defesa Nacional e Membro da Direção da CIIWA - Núcleo Norte.

Outros artigos deste autor


RECOMENDADO PELOS LEITORES

REVISTA DIGITAL

IT SECURITY Nº7 Agosto 2022

IT SECURITY Nº7 Agosto 2022

NEWSLETTER

Receba todas as novidades na sua caixa de correio!

O nosso website usa cookies para garantir uma melhor experiência de utilização.