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Da sala de aula para a sala de guerra: A evolução do awareness training

Durante anos, os programas de Security Awareness Training evoluíram significativamente, obtendo resultados relevantes na sensibilização dos colaboradores para os riscos de cibersegurança.

Por Marcelo Rodrigues, Partner, PwC . 11/12/2025

Da sala de aula para a sala de guerra: A evolução do awareness training

Contudo, quando ocorre um incidente real, os colaboradores muitas vezes não reagem como seria esperado. O conhecimento teórico não se traduz em ação eficaz sob pressão.

O Problema da Formação Tradicional

Uma investigação publicada na revista Science concluiu que a aprendizagem passiva (ler ou reler material) resulta em apenas 36% de retenção após uma semana. Em contraste, aprendizagem por prática ativa de recordação e aplicação atinge 80% de retenção (Karpicke & Roediger, 2008).

Ou seja, o problema não é falta de conhecimento, mas sim falta de experiência prática. Saber que não se deve clicar em links suspeitos é diferente de reconhecer um ataque sofisticado dirigido especificamente à nossa função. Conhecer o procedimento de resposta a incidentes é diferente de o executar quando o CEO está a pressionar por respostas e os serviços críticos de negócio não podem ser prestados aos clientes dado que os sistemas estão indisponíveis.

Segundo o Global Digital Trust Insights, as organizações estão a priorizar o uso de Inteligência Artificial Generativa para deteção de malware e phishing. No entanto, o fator humano permanece crítico e a melhor IA não vai detetar todas as tentativas de ataque nem compensar decisões erradas tomadas por humanos sob pressão em equipas menos preparadas.

Tabletop Exercises: Aprendizagem através da prática

Antes de mais, importa reiterar: os exercícios tabletop não substituem o security awareness training tradicional. Os colaboradores precisam de conhecer os conceitos fundamentais de cibersegurança. Contudo, o contrário é altamente perigoso – assumir que apenas formação teórica prepara uma organização para responder a um incidente real. Os exercícios tabletop complementam o security awareness training tradicional de forma crítica: transformam conhecimento passivo em competência ativa. Em vez de apenas transmitir informação, colocam os participantes dentro do cenário de ataque, forçando-os a aplicar o que aprenderam, tomar decisões sob pressão, comunicar eficazmente e lidar com as consequências das suas escolhas.

Uma sessão típica deve reunir participantes de diferentes departamentos críticos da instituição e pode envolver elementos com diferentes níveis de responsabilidades. Exercícios que envolvem elementos da Administração são usualmente muito profícuos dado que os principais decision-makers estão presentes.

Em alguns casos, o exercício inicia-se com um prólogo imersivo utilizando sistemas de realidade virtual, colocando os participantes "dentro" do cenário de ataque. Esta abordagem capta imediatamente a atenção dos envolvidos e estabelece o tom de urgência e realismo que caracterizará toda a sessão. Em seguida, o facilitador dá continuidade à apresentação do cenário, identificando várias fases, como por exemplo:

Etapa 1: "São 08h30 de terça-feira e os colaboradores não conseguem aceder ao software de faturação da empresa. O que fazem?"

Etapa 2: “Pelas 09h15, a equipa de IT descobre uma nota de ransomware e os backups estão encriptados. Que decisões tomam agora?"

O exercício por etapas continua, escalando a complexidade e conjugando outros fatores/ decisões relevantes para a tomada de decisão, incluindo a reação a notícias públicas sobre o ataque, dúvidas sobre comunicação a stakeholders chave ou envolvimento das autoridades.

As Vantagens Transformadoras

Quando um colaborador experiência uma simulação, está a aprender por prática ativa de recordação e aplicação, e essa lição fica gravada de forma que nenhum vídeo consegue. A experiência cria memória muscular organizacional.  Os exercícios tabletops revelam invariavelmente lacunas que ninguém tinha considerado: "Quem tem autoridade para desligar os sistemas de produção?", "Quem pode dar ordem para cortar a ligação à internet?”.

Diferentes departamentos descobrem como as suas decisões e ações se interligam. Equipas de Comunicação / Relações-Públicas entendem que não podem fazer comunicações públicas antes da equipa de IT avaliar a extensão do impacto do ataque. A equipa de IT compreende as ramificações legais dos sistemas estarem indisponíveis. A equipa de Legal entende a pressão operacional sobre o negócio. E esta compreensão mútua é inestimável durante crises reais.

Para muitos colaboradores, a cibersegurança é uma "caixa negra" gerida pela função de IT e pela função de segurança da informação, e da exclusiva responsabilidade destes. Os exercícios tabletop democratizam o conhecimento, mostrando que todos têm um papel e que as suas decisões importam.

As metodologias estão a evoluir. Algumas organizações, incluindo a PwC, estão a integrar realidade virtual nos programas que administram de formação avançada, criando ambientes híbridos onde participantes vivenciam visualmente os cenários enquanto tomam decisões colaborativas. Esta combinação potencializa ainda mais a retenção e o impacto.

ROI Mensurável

Ao contrário da perceção comum, o ROI dos exercícios tabletop é mensurável através de múltiplos indicadores:

Tempo de resposta: Organizações que realizam exercícios tabletop regularmente demonstram capacidade superior para identificar, escalar e conter incidentes comparado com organizações que dependem apenas de formação teórica.

Melhoria de processos: Cada sessão revela lacunas concretas em procedimentos, canais de comunicação, cadeias de decisão e coordenação interdepartamental. Estas descobertas traduzem-se em melhorias processuais.

Preparação organizacional: A diferença torna-se visível quando ocorre um incidente real onde as equipas que praticaram, respondem com clareza, seguem protocolos e coordenam-se eficazmente, enquanto equipas não preparadas perdem tempo crítico em confusão e indecisão.

Engagement e retenção: Os exercícios tabletop criam momentos de aprendizagem memoráveis. Participantes recordam-se das discussões, dos dilemas enfrentados e das decisões tomadas de forma que jamais recordariam através de um módulo de e-learning.

Conclusão

A teoria tem o seu lugar, mas a simulação transforma conhecimento em competência. Não podemos preparar pessoas apenas com apresentações, vídeos e e-learning. Os exercícios tabletop representam o complemento e a evolução necessária de informar para capacitar, de ensinar para treinar. Quando a próxima crise chegar, a diferença entre uma organização que simula e uma que apenas informa pode ser a diferença entre resiliência e calamidade.

 

Conteúdo co-produzido pela MediaNext e pela PwC

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