Analysis
Uma interrupção prolongada do fluxo de dados poderá comprometer pagamentos, saúde, energia e serviços de emergência, alerta um estudo da BCG sobre a infraestrutura digital europeia
29/06/2026
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A infraestrutura digital tornou-se um dos pilares do funcionamento económico e social da Europa, mas a sua capacidade para resistir a falhas prolongadas continua aquém do nível de dependência atual, segundo o estudo The Day Europe’s Data Stops Flowing, da Boston Consulting Group (BCG). O estudo alerta para o risco de uma interrupção do fluxo de dados desencadear uma crise com impacto em setores críticos como os serviços financeiros, saúde, energia, mobilidade, logística e serviços de emergência. Segundo a consultora, a vulnerabilidade resulta, em parte, do próprio sucesso da digitalização. Embora as redes estejam preparadas para responder a interrupções de curta duração, persistem fragilidades perante cenários de maior duração. O estudo identifica um “défice de resiliência” entre a crescente dependência digital da Europa e a capacidade efetiva da infraestrutura para operar sob pressão. Entre os principais riscos identificados estão a existência de pontos únicos de falha em ligações críticas de rede, a proteção insuficiente de infraestruturas secundárias, como centros de dados regionais e sistemas de cópia de segurança, e a exposição dos cabos submarinos. Em várias regiões da Europa Central e de Leste, mais de 80% do tráfego internacional depende de apenas um ou dois conectores físicos, enquanto menos de 20% das estações europeias de amarração de cabos dispõem de vigilância permanente. O estudo traça ainda três cenários de impacto. Num cenário de interrupção de curta duração, a Europa poderá registar atrasos em pagamentos digitais no valor de até 200 milhões de euros, além de milhares de chamadas para os serviços de emergência ficarem em espera. Se a falha se prolongar por um dia, podem ficar bloqueados entre 25 e 30 mil milhões de euros em pagamentos interbancários, além do cancelamento de centenas de milhares de consultas e da indisponibilidade de resultados laboratoriais. Num cenário extremo, com uma semana de interrupção, a BCG estima que o bloqueio de transações possa ascender a cerca de 200 mil milhões de euros, acompanhado de perturbações significativas nos serviços de saúde, energia e cadeias de abastecimento. Para Eduardo Bicacro, Managing Director e Partner da BCG Lisboa, o apagão elétrico que afetou Portugal e Espanha no ano passado demonstrou a importância das infraestruturas críticas. “Este estudo mostra que a necessidade de fazer melhor pela resiliência deste ecossistema é real ao nível europeu também. Esta deve ser uma prioridade estratégica para a Europa, para os players do setor e para os seus investidores”, afirma. O responsável considera ainda que, embora muitas destas infraestruturas estejam nas mãos de operadores privados, “as instituições públicas têm de assumir o seu papel na regulação e no apoio ao financiamento”, através da monitorização da qualidade do serviço, do reforço da redundância e da coordenação da cooperação transfronteiriça. Perante este cenário, a BCG defende uma abordagem coordenada entre governos, reguladores e empresas para reforçar a resiliência da infraestrutura digital europeia. Entre as recomendações incluem-se o reforço da redundância das infraestruturas, a identificação de pontos únicos de falha, a definição de requisitos de resiliência para fornecedores, a adoção de procedimentos de operação em modo offline e a realização de exercícios de simulação para testar a resposta a incidentes de grande escala. Para a consultora, a resiliência digital deixou de ser apenas uma preocupação tecnológica e passou a constituir um requisito estratégico para assegurar a continuidade dos serviços essenciais e reforçar a confiança na economia digital europeia. |