Opinion
A ideia de que apenas as grandes empresas são alvo de ciberataques é uma suposição perigosa. Atualmente, as pequenas e médias empresas (PME) estão na mira de cibercriminosos cada vez mais sofisticados
Por Pedro Jorge Viana, Diretor de Pré-venda da Kaspersky para Portugal e Espanha . 04/12/2025
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Segundo dados do Relatório ITSR 2024 da Kaspersky, as PME sofrem, em média, 16 ciberataques por ano, um número demasiado próximo dos 18 ataques registados nas grandes organizações. Estes níveis elevados de exposição exigem uma avaliação profunda das estratégias de cibersegurança adotadas por empresas com equipas mais reduzidas e orçamentos limitados. O que está a impulsionar o aumento de ataques às PME?As razões são essencialmente estratégicas. As empresas mais pequenas funcionam, muitas vezes, dentro de cadeias de fornecimento mais amplas, atuando como elos vulneráveis que os cibercriminosos exploram para lançar ataques com consequências significativas. Além disso, existe uma escassez generalizada de profissionais qualificados em cibersegurança. Os dados do estudo indicam que cerca de 41% dos profissionais de segurança informática afirmam que as suas equipas estão subdimensionadas, o que obriga as equipas de TI generalistas a assumir responsabilidades de cibersegurança para as quais podem não estar totalmente preparadas. Os atacantes conhecem bem esta lacuna de recursos e estão mais do que dispostos a explorá-la. As ameaças também evoluíram de forma drástica. O modelo de ransomware como serviço (RaaS) e as ferramentas de engenharia social potenciadas por IA tornaram-se produtos comerciais, facilitando o acesso generalizado, até para os atacantes menos experientes. Para as PME, a questão crítica já não é se serão atacadas, mas o quão preparadas estão para responder a um ataque. Reconhecer os sinaisEsperar por um incidente para decidir reforçar a cibersegurança não é uma estratégia. Os líderes devem saber identificar os sinais de que as suas defesas atuais já não são suficientes. Um dos indicadores mais claros é a fadiga de alertas. Quando a equipa de TI está saturada com notificações de várias soluções e tem dificuldade em priorizá-las ou investigá-las por falta de contexto, as capacidades de deteção ficam sobrecarregadas. Este processo manual e repetitivo não só aumenta a probabilidade de uma ameaça real passar despercebida, como também contribui para o esgotamento da equipa. É um sinal evidente de que é necessário um sistema mais integrado e inteligente. Um dos principais sinais de alerta é o aumento da superfície de ataque sem um reforço proporcional dos recursos disponíveis. À medida que o negócio cresce, multiplicam-se também os pontos de contacto digitais: Aplicações, dispositivos, acessos remotos, parceiros. Se os recursos de cibersegurança não evoluir ao mesmo ritmo, atividades essenciais como a manutenção, a correção de vulnerabilidades e o cumprimento das normas tornam-se quase inviáveis. O resultado é um conjunto de lacunas de cibersegurança prontas a serem exploradas por atacantes cada vez mais oportunistas. Um dos cenários mais frustrantes ocorre quando os colaboradores continuam a ser alvo de ataques de phishing e engenharia social, mesmo com proteção de endpoints já implementada. Isto não significa que a solução de segurança falhou, mas sim que o panorama de ameaças evoluiu para explorar o comportamento humano. Se as defesas não estiverem desenhadas para mitigar o erro humano, a organização continuará exposta a riscos que ultrapassam a mera componente tecnológica. XDR: o que é, porque é importante e como fazer a transiçãoO eXtended Detection and Response (XDR) representa a próxima etapa na evolução da cibersegurança. Integra dados de múltiplas fontes - endpoints, redes, workloads em cloud ou e-mail - numa plataforma unificada, oferecendo uma visão holística do ambiente de TI. Isto permite relacionar eventos aparentemente não relacionados e identificar ataques sofisticados que passariam despercebidos com ferramentas isoladas. As principais barreiras à adoção do XDR nas PME são bem conhecidas: restrições orçamentais, falta de experiência interna e perceção de complexidade. Estes desafios são legítimos, mas o custo da inação é significativamente superior. O essencial é escolher uma solução que combine capacidades de nível empresarial com a simplicidade e escalabilidade que uma PME exige. Um erro frequente é assumir que o XDR é apenas para grandes organizações. Na realidade, os seus benefícios de deteção mais rápida de ameaças, de visibilidade total e resposta automatizada são ainda mais críticas para as PME que operam com recursos limitados. A adoção do XDR não precisa de ser complexa nem repentina: Uma abordagem estratégica e faseada garante uma integração fluida, alinhada com o ritmo e a maturidade do negócio. Se uma empresa decidir manter a gestão da segurança internamente, encarando-a como parte da sua estratégia a longo prazo, o objetivo deve ser desenvolver competências próprias, personalizar regras de deteção e reforçar as capacidades da equipa. Esta abordagem permite implementar e operar soluções avançadas de forma autónoma, garantindo maior controlo e alinhamento com os objetivos do negócio. Contudo, construir internamente uma estrutura de segurança eficaz exige tempo, experiência especializada e atualização constante. Por isso, muitas organizações optam por serviços de cibersegurança geridos, que oferecem uma proteção robusta de forma mais eficiente. A escolha da solução XDR adequada deve ter em conta o orçamento, a dimensão e o setor de atividade, privilegiando a escalabilidade e a integração simples. É essencial optar por uma plataforma que cresça com o negócio, permitindo ampliar gradualmente o nível de segurança e garantir estabilidade em cada fase, enquanto se forma o pessoal para lidar com os novos processos. Este modelo faseado reduz riscos e assegura que a equipa tira o máximo partido das capacidades da solução. Para empresas sem capacidade de monitorização 24/7, um modelo gerido pode ser particularmente valioso, ao combinar a análise inicial da equipa interna com a orientação de especialistas em deteção e resposta a ameaças. Por fim, é essencial monitorizar e ajustar continuamente as medidas de cibersegurança com base no feedback operacional e nas novas ameaças emergentes. Investimento na resiliênciaReforçar a cibersegurança é um passo proativo rumo à resiliência. Para as PME, o XDR deve ser encarado como um investimento estratégico fundamental. O atual panorama de ameaças não distingue o tamanho das empresas e as consequências de não estar preparado podem ser graves. Reconhecer os sinais e adotar uma abordagem faseada interna ou com apoio externo pode transformar a estratégia de cibersegurança de reativa em resiliente. E o momento certo para agir é agora, antes que um incidente menor se transforme numa violação catastrófica. |