Opinion
Num momento de profunda transformação da economia global, a proteção das infraestruturas energéticas críticas deixou de ser uma função técnica especializada para se tornar um pilar essencial da segurança nacional e da continuidade dos serviços vitais
Por João Januário, Diretor de energia da Minsait em Portugal (Indra Group) . 15/01/2026
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A crescente digitalização dos processos expõe estas infraestruturas a ameaças híbridas e de elevado impacto, exigindo uma mudança de paradigma: é urgente ultrapassar a tradicional separação entre a segurança física e a cibersegurança, e adotar uma abordagem verdadeiramente integrada, que articule os domínios físico, tecnológico e operacional. Os últimos anos foram marcados por eventos que evidenciam esta necessidade, desde ciberataques em larga escala a sabotagens em instalações energéticas, passando por colapsos de rede, catástrofes naturais e pandemias. Por outro lado, a contínua ameaça da Federação Russa à estabilidade na Europa coloca ainda mais foco na necessidade de atender a estes temas de forma mais estruturante e global. Estes acontecimentos demonstram que os sistemas de proteção devem ser interoperáveis, ágeis na tomada de decisão e capazes de responder de forma não linear às crises. A União Europeia tem vindo a reforçar a sua resposta através de várias iniciativas: o Fundo Europeu de Defesa apoia a investigação e o desenvolvimento de tecnologias inovadoras; o Escudo Europeu de Cibersegurança estabelece uma rede coordenada de Centros Operacionais; as diretivas NIS 1 e NIS 2 reforçam a segurança informática; e a diretiva CER alarga a resiliência das infraestruturas críticas a novos setores. A Estratégia Industrial de Defesa Europeia, por sua vez, visa fortalecer a indústria da defesa, com novos financiamentos e a obrigatoriedade de os Estados-Membros destinarem uma parte significativa dos seus orçamentos ao setor. Neste contexto, o mercado da proteção de infraestruturas críticas está em forte expansão. Segundo o relatório "Critical Infrastructure Protection Market" da MarketsandMarkets, este mercado deverá atingir os 197,13 mil milhões de dólares até 2030. Entre 2025 e 2030, o segmento energético será o mais representativo, impulsionado pela necessidade crescente de proteger instalações, pessoal e ativos contra ameaças físicas como roubos, sabotagem e/ou terrorismo. O Médio Oriente e África registam atualmente a taxa de crescimento mais elevada, fruto dos investimentos em energia, transportes, infraestruturas urbanas e cidades inteligentes. Embora a tecnologia seja, sem dúvida, um motor fundamental, o verdadeiro diferencial está na capacidade de construir modelos integrados de prevenção e resposta. As soluções devem ir além da mera soma de ferramentas: é necessário criar sistemas que recolham e interpretem, em tempo real, dados provenientes de múltiplas fontes, transformando-os em decisões operacionais imediatas e permitindo a coordenação eficaz entre diferentes entidades. A simulação antecipada de cenários de crise é igualmente crucial, permitindo testar estratégias e validar ações antes que ocorram eventos reais. Só plataformas abertas e modulares, compatíveis com os sistemas existentes, garantem esta agilidade, convertendo a tecnologia num aliado da resiliência energética. Na prática, a proteção das infraestruturas energéticas exige uma direção única que integre segurança física e digital. Falamos de soluções que vão desde a videovigilância avançada aos sistemas de controlo de acessos, passando pelas redes de comunicação de emergência e centros de comando com visão global e partilhada. A estas juntam-se tecnologias inovadoras como drones, análise de fluxos em tempo real e inteligência artificial, que permitem reduzir os tempos de reação e reforçar a prevenção. O mais importante, contudo, é a arquitetura global: um sistema aberto, escalável e adaptável às ameaças em constante evolução, sem comprometer os investimentos já realizados. A proteção das infraestruturas críticas é hoje um ativo estratégico das políticas industriais e de segurança europeias. A regulamentação (como as diretivas NIS2 e CER), os incentivos e a inovação tecnológica vão além da prevenção, apontam para sistemas capazes de antecipar, absorver e recuperar. O verdadeiro valor reside na capacidade de medir resultados concretos: redução do risco operacional e reputacional, diminuição dos tempos de inatividade, conformidade por design e, sobretudo, na possibilidade de escalar ao longo do tempo: integrar o que já existe, crescer por módulos, manter o controlo dos dados e das interfaces. É desta forma que a resiliência se afirma como uma vantagem competitiva e uma garantia essencial de estabilidade para a sociedade. |